AKMANDRITAS
outubro 1, 2011 at 8:08 pm 16 comentários
AKMANDRITAS
Por Rita Maria Felix da Silva
Há três décadas, nosso universo entrou em interface com um outro. Segundo os cientistas, o evento teve uma duração exata de vinte e dois minutos, mas foi o suficiente para que as monstruosidades Akmandritas — bípedes, três metros de altura, quatro braços, cinco olhos, pele reptiliana, despedaçam você em instantes — infestassem a Terra e quase dizimassem a humanidade. Perdi minha esposa e três filhos. Caí em depressão por um ano inteiro. Em algum momento, me ergui e tentei continuar sobrevivendo. Fico lembrando daquela frase na música de Omar Klavad: “de que adianta chorar?”.
Meu nome é Emílio de Belenoi. Moro na cidade-domo, num lugar uma vez chamado Bolonha, Itália, junto com todos os humanos que restaram. Claro, há momentos em que precisamos sair. Felizmente para isso um gênio indiano inventou esse dispositivo, em forma de cinto, que “congela” os monstros no tempo por uns segundos, o bastante para fugirmos. Não sei explicar a Ciência envolvida (antes da queda da humanidade, eu curtia Futebol, não Física Quântica). Algum engraçadinho começou a apelidar essas máquinas de “refrigeradores” e o nome pegou.
Ontem, eu conversava com Edmond Vonbard, meu amigo desde a adolescência e a pessoa mais honesta que conheço. Por isso, aceitei o negócio que me propôs: trocar o “refrigerador” dele, um modelo mais antigo, pelo meu e, em contrapartida, ganhei CDs do Black Sabbath. Nem sonhava que ainda existissem.
Um minuto atrás, entrei nas ruínas de uma biblioteca e ouvi um Akmandrita rugir. Apertei o botão em meu cinto, mas, ao invés do ruído da “distorção temporal”, veio apenas o cheiro de fios queimando. O monstro avança para mim. Parece que finalmente vou reencontrar minha família. Meu último pensamento é “Vonbard, seu ladrão!”.
FIM
Dedicado a Raven Ravenna
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16 Comentários Add your own
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1.
Emer Machado | outubro 2, 2011 às 5:23 am
Simplesmente, fascinado!
Adorei a forma que você escreveu e pela sutileza que você leva todo esse ‘drama’ até o final.
E o narrador me conquistou!
Parabéns pelo texto!
2.
Enio Myrddin | outubro 7, 2011 às 2:55 am
O mundo em que se passa o conto parece bem legal, com referências a várias histórias que eu conheço e gosto.
Não sou fã de contos “pré morte”, mais o texto ficou bom.
Parabéns!
3.
maya blannco | outubro 8, 2011 às 11:45 pm
Oi, amiga!
Como sempre, seus contos são de uma criatividade fantástica. Excelente!
Bjo.,
Maya.
4.
Ana | outubro 9, 2011 às 12:35 am
[I] Ontem, eu conversava com Edmond Vonbard, meu amigo desde a adolescência e a pessoa mais honesta que conheço.[/I]
Que frase mais incrível…
Toda vez que leio seus contos, minha imaginação fica solta e querendo saber mais.
bjoo
5.
Matheus Carvalho | outubro 9, 2011 às 3:37 am
Um reflexo atual da humanidade numa distopia vaga mas que nos remete a uma situação extrema.
6.
Nardélio F. Luz | outubro 9, 2011 às 3:10 pm
Sua criatividade é infinita, Rita. Ainda me impressiono com o fato de vc conseguir se expressar tão bem e construir uma história inteira em tão poucas linhas. Como já disse, sou seu fã.
Coitado do Emílio, descobriu que o “amigo” não era tão honesto quanto pensava, tarde demais.
Parabéns moça!
7.
Debby | outubro 10, 2011 às 3:17 am
Uma lição: Em tempos difíceis não podemos confiar em ninguém. nem nos nossos amigos de infância.
beijos
8.
Geralda | outubro 11, 2011 às 12:15 pm
Como sempre, seus contos são excelentes e de uma criatividade fantástica.
E sempre que estou lendo seus contos, fico imaginado como você consegue construir uma história inteira em poucas linhas.
Beijos e boa criatividade!
9.
Bruno Resende Ramos | outubro 12, 2011 às 3:07 am
Trabalha pela ausencia uma virtude importante nesses nossos tempos: a confiança.
Excelente materia de reflexao.
10.
Yarin | outubro 12, 2011 às 4:13 am
Realmente gostei muito, me fez imaginar muito sobre toda essas mudanças em poucas linhas gostei muito, parabéns.
11.
Cirilo S. Lemos | outubro 12, 2011 às 2:45 pm
Rita está se especializando em textos curtinhos. Gostei. Achei interessante a menção à Itália, e o nome dos monstros, akmandritas (arquimandrita é um tipo de monge). Os nomes dos personagens também seguem um estilo meio pais da Igreja. Há alguma relação aí, ou estou viajando demais?
12.
Daniel Folador Rossi | outubro 13, 2011 às 3:40 am
Achei legal a inserção dos pensamentos e comentários do narrador-personagem na narração, além de soarem convincentes, deram boa cadência ao texto =)
Akmandrita nao seria grego?
13.
Sullivan Suád | outubro 13, 2011 às 12:55 pm
Surpreendente!
14.
M. C. Carper | outubro 16, 2011 às 7:42 am
Cds de Black Sabbath Isso e muito legal!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Saludos desde Argentina!
15.
Tibor Moricz | outubro 17, 2011 às 2:38 pm
Achei um bom plot para uma história maior. Que tal trabalhar mais a ideia, aprofundar o aspecto hard e transformar esse conto numa noveleta?
16.
Rogério Vieira | outubro 18, 2011 às 1:02 pm
Legal, gostei!