O Espírito de Junho

Pessoal,

Acredito que meus leitores estão mais acostumados com textos mais curtos meus, embora eu já tenha feito prosas mais longas. Esta, que posto agora, já estava em minha cabeça há mais de três anos. Com ela pude utilizar novamente Garen Ordonax e Iwan Khan.

Quero agradecer a três amigos que tornaram a confecção deste conto possível. Wesley Felipe Ferreira, meu amigo filósofo e vegetariano, também conhecido como Henri (Henrique Corredeiras), que emprestou seu nick para ser utilizado neta história. Meus agradecimentos também a Daniel Folador, brilhante escritor, Neil Gaiman brasileiro em formação, que cedeu o nome para ser o antagonista desta história. E todos os obrigadas do mundo ao escritor (e um de meus ídolos) John Ostrander, que consentiu em aparecer como personagem desta história. No mundo real, John não é médico, mas já foi ator e é um dos melhores escritores que conheço.

Boa leitura.

 

O ESPÍRITO DE JUNHO

“Sim, eu vejo, sim, eu já vejo,
Este terrível Espírito de Junho,
que de mim se aproxima
inescapável e ligeiro”
Jean—Henri Juriée — “L´Esprit di Juin”

— PRÓLOGO —

Já fazia alguns anos que o cientista Dr. Henrique Corredeiras havia deixado o Brasil e se mudara para a Itália. Lá ele trabalhava no renomado Instituto São Pio de Pietralcina, situado na cidade de San Giovanni Rotondo, em uma pesquisa patrocinada pelo Vaticano. Henrique namorava a famosa e arrogante atriz siciliana Marina Martelli e, sem que esta soubesse, tinha por amante Oksana Pavlyk — uma bela, alegre e intensa emigrante da Ucrânia —, que ele conhecera numa viagem à Calábria e mantinha numa casa confortável e discreta em Nápoles.

Quando não estava trabalhando ou passando o tempo com Marina ou Oksana, Henrique descansava em sua casa na famosa Avenida Via del Corso, em Roma, onde se dedicava a leituras relacionadas à sua área de pesquisa ou obras de Filosofia, uma de suas três paixões. Às vezes, com um livro debaixo do braço, saía a passear pelas renomadas fontes romanas, especialmente, a Fontana de Trevi, a qual ele não se cansava de admirar.

Sua vida era simples, boa e previsível. Ele agradecia ao destino por isso e jamais imaginaria que algo pudesse mudar, mas, em junho, aproveitando que Marina estava ocupada com as filmagens de uma comédia romântica na Sardenha, viajou ansioso até Oksana. Infelizmente, aquela foi uma viagem que ele nunca pôde completar.

— PARTE I —

Quando retiraram a venda, a luz branca da sala inundou—lhe os olhos insuportavelmente. Henrique cobriu o rosto com as mãos por alguns segundos, até que sua visão voltasse ao normal. Sentia—se tonto. Confuso. Vagarosamente, porém, sua lucidez começava a voltar. Lembrava de ter descido do carro, apenas a alguns metros da casa de Oksana, quando três homens se aproximaram sem aviso. Dois deles o agarraram. O terceiro injetou—lhe uma agulha no braço direito. Arrastaram—no a um automóvel desconhecido. Depois tudo ficara escuro.

— Ele vai ficar bem, Dr. Ostrander? — disse uma voz em italiano com um sotaque forte, interrompendo as memórias de Henrique.

— Sim, o efeito do tranqüilizante já está passando. — respondeu o doutor em italiano polido e com sotaque estadunidense.

Henrique percebeu que estava sentado numa sala de paredes brancas. Dois homens, em uniforme militar e pesadamente armados, encontravam—se perto dele. Olhou para frente e viu um jovem sentado a uma mesa de escritório, segurando nas mãos uma caneta e um bloco de rascunhos. Fora dele que viera a voz com sotaque destacado. Também se podia ver um homem idoso de jaleco branco, feições firmes, mas gentis; e um oriental silencioso e de olhar mortífero. Quanto a Henrique, suas mãos estavam atadas por correias aos braços da cadeira. Por um instante, ele não sabia o que dizer.

— As palavras que você está procurando devem ser alguma coisa como “o que diabos estou fazendo aqui e o que está acontecendo?”, ou, pelo menos, algo bem parecido. — disse o jovem com sotaque forte.

— PARTE II —

— Vocês me drogaram! Me raptaram! Por que fizeram isso? Me soltem, agora! — disse furiosamente Henrique, em italiano, tentando levantar—se da cadeira.

— Olha, não acho que você esteja em posição de dar ordens, mas tudo bem, afinal não vai a lugar nenhum mesmo. Doutor Ostrander, desamarre—o. — respondeu o jovem que falava um italiano de sotaque carregado.

Dr. Ostrander atendeu ao comando prontamente e Henrique levantou—se numa mistura de fúria e revolta que, na verdade, encobria seu próprio medo:

— Que lugar é esse? Eu quero ir embora daqui!

O jovem colocou o bloco de rascunhos na escrivaninha e apenas disse:

— De coração, para o seu próprio bem, não te aconselharia a sair daqui.

— Está me ameaçando? — retrucou Henrique da forma mais desafiadora que pôde.

— Longe de mim querer ameaçá—lo. Mas acho que começamos do modo errado. Depois que eu explicar, garanto que não vai querer ir embora. Por favor, sente—se, até porque aqueles dois sujeitos ali carregando essas armas ameaçadoras não vão te deixar sair sem ordem minha.

— E você é o que? Algum gangster maluco? — indagou Henrique voltando a se sentar.

— Não, nada tão dramático, — respondeu o jovem com um sorriso amargo de ironia —, realmente não me conhece? Também sou brasileiro feito você.

Henrique analisou o rosto do jovem com cuidado.

— Você me parece… Aquele escritor recluso… Daniel Folador. Você escreveu um best—seller, mas se recusava a dar entrevistas. Desapareceu há dois anos. Acompanhei sua história pelos jornais. A imprensa acha que você morreu. O que está fazendo aqui… Com essa quadrilha? Tudo isso está ficando cada vez mais estranho.

— Nem tanto assim, quando você se acostuma com os detalhes. Estamos num subterrâneo no subsolo de Roma. Essa é uma das várias instalações que fazem parte desta operação… Somos uma iniciativa internacional conjunta da União Européia e Estados Unidos para tratar de assuntos delicados e de interesse comum as duas partes. Infelizmente, nosso trabalho, que é um pouco incisivo, poderia ser entendido como antiético pela mídia, daí que somos uma organização secreta.

— Por favor, Sr. Folador, controle seus delírios de escritor. Como posso acreditar em algo assim? — questionou Henrique. — Estamos no mundo real, não em algum filme hollywoodiano. E isso não explica como você veio parar aqui, e, muito menos, porque me trouxeram para cá.

Novamente, Daniel Folador sorriu com aquele tom de ironia amarga:

— Bem, Henrique, o mundo tem mais do clichê hollywoodiano do que imagina. Quanto a suas dúvidas… Há dois anos, sentia—me desiludido com a vida e com a arte. O sucesso me desagradava. Tudo parecia vazio e sem rumo. Esta organização se aproximou. Disseram encontrar em mim as qualidades que precisavam e me ofereceram uma vida que eu só poderia encontrar nos livros. Não hesitei em abandonar minha antiga existência…

— Mas, — interrompeu Henrique — isso não explica nada. Você é apenas um escritor, e agora está posando de “o poderoso chefão do mundo da espionagem”… Não consegue ver a surrealidade disso?

— “A realidade não deve explicações a ninguém e não está presa a nenhuma cláusula de verossimilhança”.  Não lembro quem disse isso, talvez Neil Winterwood[1]… Respondendo a sua outra pergunta: nós o trouxemos aqui para protegê—lo.

— De que? Não corro perigo nenhum. Sou só um cientista. Faço uma pesquisa sobre o comportamento do jovem europeu, apenas isso. Que perigo poderia haver?

— Nenhum, se você estivesse falando a verdade, mas, nós dois sabemos, que não está. Não é mesmo? — retrucou Daniel.

— PARTE III —

— Não tente insistir na versão oficial, Henrique. — continuou Daniel, e fazia notas no bloco de rascunho enquanto falava. — Sua pesquisa é paga pelo Vaticano e o Vaticano também é parceiro nesta organização. Sabemos que, na verdade, você trabalha no desenvolvimento de um biochip que, quando pronto vai… Como é mesmo que você diz nos relatórios? “Permitir a programação dos pensamentos, sentimentos, emoções e ações de um indivíduo”. Fascinante, não é? Com chips assim implantados nas populações, os governos mundiais vão poder controlar tudo que o povo pensa ou sente e cada atitude dele: não haverá mais crimes, nem revoltas, nem descontentes se opondo aos governantes… Um mundo de perfeita ordem… Um mundo de perfeitos escravos. Seu trabalho vai erradicar o livre arbítrio de milhões de pessoas. A ética disso não te incomoda?

— Se o que você está dizendo fosse verdade, — respondeu Henrique — bem, eu já me decepcionei muito com o mundo para me preocupar com questões de livre arbítrio. E você, não se incomoda?

— Eu cumpro ordens. Entre elas não está a autorização para emitir certos julgamentos morais. As opiniões que tenho, guardo para mim mesmo.

— Mesmo que essa sua história fosse verdade, não justifica me manter aqui.

O rosto de Daniel assumiu um tom mais solene e grave:

— Justifica. Se quisermos mantê—lo vivo…

— PARTE IV —

Daniel Folador prosseguiu:

— Mas espere, falei tanto que acabei sendo mal educado. Não apresentei meus amigos aqui. — e apontou a caneta para o homem de jaleco branco — Esse é o Doutor John Ostrander. Médico dos bons. Gastou a vida ajudando as pessoas pobres contra doenças tropicais nos países subdesenvolvidos. Ele se embrenhou em florestas, viveu em favelas e ruínas de cidades bombardeadas e atravessou guerras e campos de refugiados. Quando entendeu que nunca poderia vencer essa luta sozinho, juntou—se a nós. — e então se virou para o oriental — Já esse daqui é Iwan Khan. Não tenho certeza da nacionalidade. Certamente, você não o conhece, mas em certos círculos ele é considerado o melhor assassino do mundo. Nós o contratamos para protegê—lo. Sei que parece ironia, mas, diante da ameaça que pende sobre você, acho que o Sr. Iwan Khan merece cada euro que estamos gastando com ele…

— Isso tudo é loucura! — interviu Henrique — O que é que está me ameaçando afinal?

Daniel suspirou profundamente:

— Deixa ver por onde eu começo: conhece o poema “L´Esprit di Juin”?

— “O Espírito de Junho”, de Juriée, não é? Eu o li quando tive aulas de Francês na adolescência.

— Lembra do que se trata o enredo daquela poesia? — indagou Daniel.

— Sim, no poema, Juriée fala de uma entidade sobrenatural que desce sobre uma aldeia no interior da França para punir “os corruptos, os malfeitores e aqueles de coração maligno”. É bastante sombrio.

— Realmente, — completou Daniel — me assustava quando li na infância. Ainda me assusta, especialmente aqueles versos finais.

— Pelo amor de Deus! — disse já desesperado Henrique — Que perigo eu estou correndo, afinal? Não vai me dizer que estou sendo ameaçado por um poema, não é?

— Não exatamente. Estamos lidando com alguém que se considera a versão humana do “Espírito de Junho”.

— O que?!— exclamou um confuso Henrique.

— PARTE V –

Abandonando a ironia e a amargura em sua voz, e substituindo—as pelo medo, Daniel Folador prosseguiu:

— O nome é Garen Ordonax. Não estranhe se nunca escutou falar dele. Trabalhamos muito para que a existência de Ordonax fosse mantida longe da imprensa. Nós o rotulamos como superterrorista. Sério, embora ele se classifique como um ativista radical. Nos últimos cinco anos, matou vinte pessoas ao redor do mundo. Políticos, militares, industriais… Ele diz lutar para proteger a evolução humana e elimina qualquer um que, na opinião dele possa comprometer isso.

— Pelo amor de Deus! Isso tem que ser alguma ficção! — replicou um atormentado Henrique.

— Acredite, — interveio Daniel. — Venho repetindo isso faz tempo. Vai achar que é clichê, mas, exceto pelo nome, que é falso, e os rumores, não temos informações sobre ele: nacionalidade, aparência, testemunha viva que já o tenha visto… Nada. Uma página em branco. Um completo mistério. Mas uma página que quer matar você, porque acha que sua pesquisa compromete o ideal dele. E, se um terço do que se supõe sobre esse Ordonax for verdade, acho que estamos lidando com um… Um super—herói! O conceito não é divertido?

Henrique, perturbado com tudo aquilo, baixou a cabeça e não sabia mais o que dizer.

— Não se preocupe, Dr. Henrique Corredeiras. Pelas simulações de nossos especialistas, você precisará de mais cinco anos para concluir o biochip. Vai ficar nesta instalação, em segurança, e concluirá seu trabalho aqui, para o bem do mundo livre e da Democracia, e para a felicidade de nossos empregadores.

— Não, — redargüiu Henrique. — Tenho uma vida lá fora, não vou morar num subterrâneo.

O rosto de Daniel encheu—se com aquele sorriso de ironia amarga, que deixava transparecer inquietude e decepção diante da vida:

— Lamento, mas quem lhe disse que pode recusar? Se quiser, podemos trazer Oksana para cá. Sim, sabemos de tudo sobre você.

— Por favor, fiquem longe dela. Eu nunca a submeteria a viver desse jeito.

— Hum… Abnegação. – admirou—se Daniel. — Um gesto bonito de sua parte. Ah, o amor… Eu já acreditei tanto nele… Bem, sua vida aqui vai ser tranqüila e confortável. Quando o biochip estiver pronto, nós o liberaremos com uma nova identidade e mais dinheiro do que poderia gastar. — Daniel fez uma pausa, como se para dar maior ênfase ao que diria a seguir. — Não se preocupe. Estamos num subterrâneo, longe do mundo. Temos um exército bem equipado nesta instalação. Nossos sistemas de segurança são os mais modernos que se pode comprar. Esta base é teoricamente inexpugnável. E, como bônus, o Sr. Iwan Khan aqui é o guarda—costas mais incrível que se possa imaginar. Não há como esse Garen Ordonax vir aqui e pegá—lo. É impossível. Você está totalmente seguro.

E, então, sem qualquer aviso, todas as luzes daquele lugar se apagaram.

— EPÍLOGO —

RELATÓRIO DO AGENTE DANIEL FOLADOR, CHEFE DE OPERAÇÕES DA SEÇÃO GAMADELTA—25:

Às 19:35 h, horário de Greenwich, toda a energia elétrica da Base Gamadelta—25 foi cortada. Mesmo agora, após toda a investigação que temos conduzido sobre o assunto, não há explicação satisfatória para este fato. Os geradores de emergência não funcionaram. Embora nossos cientistas hesitem em reconhecer, pelo tempo de 5,32 minutos, todo aparato eletrônico e o sistema de iluminação da base cessou de funcionar sem qualquer explicação física plausível. Até mesmo os sensores infravermelhos usados pelos nossos soldados ficaram inúteis por esse período. A idéia de um PEM (pulso eletromagnético) temporário foi descartada de imediato pelos nossos especialistas, dado que não se encontrou evidência que apontasse para isso.

Temos trabalhado com as hipóteses de sabotagem e/ou colaboracionismo interno, mas nosso inquérito não pôde encontrar indícios de qualquer uma dessas situações.

Igualmente não há como explicar o modo que o intruso penetrou na base, deslocou—se a velocidade sobre—humana e realizou o massacre de um modo que exigiria… Recursos super—humanos. No trajeto, o invasor despedaçou portas e paredes que estavam reforçadas para resistir a tanques de guerra. Somos forçados a reconhecer que nada humano poderia ter efetuado algo assim.

O intruso, que presumimos ser o superterrorista Garen Ordonax, deixou uma trilha de exatos cento e quarenta e quatro corpos, entre soldados, cientistas e operativos dos setores administrativos e de manutenção. Considerando que o efetivo total da Base Gamadelta—25 era de mil e vinte e duas pessoas, chego a agradecer que o terrorista tenha optado por não fazer um estrago maior.

Obviamente já estamos nos articulando com nossos contatos nas forças policiais da Europa e América, todavia, ao contrário do que a racionalidade poderia apontar, não conseguimos qualquer pista do intruso. Ele veio como se surgisse do nada, atacou—nos como se a própria fúria dos deuses caísse sobre nós, apenas para desaparecer como se nunca tivesse existido.

Entre as vítimas do massacre estão Giacomo Rossini e Manolo Alvarez, os dois soldados que estavam de guarda na sala em que eu, o operativo contratado Iwan Khan e o Dr. John Ostrander conversávamos com Henrique Corredeiras. Nossa apuração do ocorrido indica que o intruso utilizou—se de uma espada japonesa do tipo katana e que a maior parte dos que foram executados faleceram por ferimentos letais no abdômen, tórax, coração e garganta. O operativo contratado Iwan Khan teve ambos os braços amputados na altura do antebraço, mas foi à lâmina, que transpassou seu músculo cardíaco, a responsável pelo óbito. O Dr. Ostrander sofreu um golpe não letal da mão do invasor no pescoço, esteve desacordado por cerca de uma hora, mas se recuperou e passa bem.

Quando as luzes voltaram, encontramos o corpo decapitado de Henrique Corredeiras no chão da sala em que conversávamos. Mesmo após busca minuciosa, a cabeça dele não foi localizada. Nossos especialistas trabalham com duas hipóteses: a primeira, de que o terrorista tenha levado aquela parte da anatomia da vítima como algum tipo de troféu macabro (uma questão que está sendo analisada por nossos psicólogos). A outra possibilidade é mais espantosa: Ordonax buscou garantir que não tivéssemos acesso ao cérebro do falecido Corredeiras, temendo que pudéssemos usá—lo de algum modo para obter informações que possibilitassem continuar a pesquisa para desenvolvimento do biochip. Um exagero nos limites da insanidade. Não temos e não teremos tecnologia para tanto, pelo menos não nos próximos trinta anos, considerando o estágio atual das pesquisas desta organização nos campos da morfologia e fisiologia cerebral.

Em paralelo a essa hipótese, descobrimos que todos os arquivos de Henrique Corredeiras, tanto as cópias em papel, quanto as digitais, tanto aquelas em posse do falecido cientista, quanto as que mantivemos em nosso poder, desapareceram completamente. Mesmo nossos melhores especialistas em Tecnologia da Informação não foram capazes de recuperar o que foi deletado dos computadores. De mesmo modo, chegou a nosso conhecimento a notícia das mortes dos doutores Luigi Ruggiero, Vicenzo Mantovanni e da doutora Amelia Kelly, assistentes do Dr. Henrique Corredeiras em seu laboratório no Instituto São Pio de Pietralcina, em condições brutais semelhantes àquelas em que nossos operativos foram assassinados.

Portanto, devo comunicar o encerramento e fracasso completo do assunto Dr. Henrique Corredeiras, pelo que assumo inteira responsabilidade. Nossos especialistas consideram que o desenvolvimento do biochip, sonho do falecido Corredeiras, ficará atrasado em muitos anos.

Obviamente, em todas estas mortes, tratamos de providenciar a devida cobertura para que pareçam naturais ou acidentes explicáveis de modo a não atrair a atenção da mídia, desde que é nosso interesse manter a existência desta organização e do intruso Garen Ordanax em segredo.

Quanto ao que aconteceu comigo, especificamente, durante o ataque do invasor, é o motivo pelo qual redigi minha carta de demissão, anexada a este arquivo, e a justificativa pela qual desejo meu afastamento, em caráter definitivo, desta organização, e meu retorno à vida civil que abandonei há dois anos. Apelo para a sensibilidade dos senhores e para o bom senso também, pois, se é verdade que nosso mundo sobreviva mergulhado no clichê hollywoodiano, ao menos espero que medidas punitivas de caráter extremo e terminal não venham a ser adotadas contra mim por desejar ir embora.

Semelhante ao Dr. Ostrander, também fui derrubado durante o ataque e sofri um golpe não letal que me manteve inconsciente por alguns minutos. Ao acordar, percebi que o invasor havia talhado à espada um ideograma em minha testa (não se preocupem, senhores, o Dr. Ostrander foi muito habilidoso em usar nossos recursos para operar e remover a dita marca). O símbolo, como poderão observar na foto anexada a este arquivo, vem do alfabeto Malkin e é um sinal que significa “mudança e renascimento”.

Confesso que estou assustado. Se assim o desejasse, o invasor Ordonax teria facilmente me assassinado como fez àquelas cento e quarenta e quatro pobres almas. Mas não o fez, provavelmente, porque acredita que posso mudar de alguma forma. O aviso está implícito: ele retornará, se eu não seguir o conselho dele e, lamentavelmente, ficou provado que nossa organização não tem os meios para impedi—lo. Vejo—me sem escolha, exceto afastar—me. Realmente, peço a compreensão dos senhores.

Solicito também a análise cuidadosa dos demais relatórios, elaborados por nossa equipe, bem como as fotos e vídeos, que anexamos ao presente documento.

Como macabro detalhe final, na mesma sala fatídica onde o Dr. Henrique Corredeiras encontrou a morte de forma tão horrível, o invasor deixou uma cópia do livro Nocturne et Autres Méditations dans une Pièce Sombre[2], de Jean—Henri Juriée, a edição original de 1850, com um marcador de tecido indicando a página do poema “L´Esprit di Juin“. Tentativas de analisar e rastrear o livro e o marcador não resultaram em nada frutífero (não há impressões digitais ou outras evidências que possam auxiliar nossos trabalhos de busca do invasor e descobrimos que o livro foi roubado de uma biblioteca escolar na Oceania há exatos cinqüenta anos).

É isso, senhores. Coloco o assunto em vossas mãos e aguardo a resposta. Meditando sobre tudo isso, com o coração sofrendo o aperto do medo, despeço—me lembrando um dos trechos do sombrio poema de Juriée:

“Eu que tolo fui em vida/e servi ao mal, a vaidade e a leviana sorte/posso dos deuses conhecer a piedade na morte?”

FIM

[1] Winterwood, Neil. “A Little Dictionary of the Hidden Things”, 1 ed., Stuart & Prescott Press: Londres, 1895.

[2] Literalmente “Noturnas e Outras Meditações num Quarto Escuro”.

agosto 30, 2014 at 1:28 am 2 comentários

Meu Coração Cabe um Infinito

Pessoal,
Para a atualização de hoje, eu posto poema inédito que pode ser também uma canção, pois o estruturei dessa forma. Assim, convido meus leitores para que o leiam como poema, mas insiram sua própria melodia para que possam cantá-lo também.Boa leitura!

EM MEU CORAÇÃO CABE UM INFINITO

Refrão1 (X2)
EM MEU CORAÇÃO CABE UM INFINITO
CABE UMA CANÇÃO

ESSA TUA BOCA ME EXCITA
CATIVA, ASSIM

A TUA VOZ ME INVOCA
ATRAI-ME, NÃO POSSO FUGIR

Refrão2 (X2)
EM MEU CORAÇÃO CABE UM INFINITO
CABE UM SONHO

O MEU CORPO ANSEIA TANTO
TEU CORPO COMPLETAR-SE AO MEU

PERTO DE TI SOU DESEJO
DESEJO SOMENTE A TI

Refrão3 (X2)
EM MEU CORAÇÃO CABE UM INFINITO
CABE UM AMOR

Poesia/letra; Rita Maria Felix da Silva

agosto 21, 2014 at 7:23 pm 4 comentários

HQ-LUZ E CONSEQUÊNCIAS

Pessoal,

Sempre tive grande vontade de fazer quadrinhos. Atualmente, os deuses e deusas estão me permitindo realizar esse sonho.
Uma das coisas que tenho feito é adaptar para quadrinhos contos meus e o resultado tem me agradado. Claro que tenho contado com a arte inestimável de ótimos desenhistas, com quem posso contar: Diego José, Clayton InLoco e Marco Azevedo Santiago.
É deste último desenhista a arte para a história em quadrinhos de duas páginas que posto a seguir.
Meus leitores mais antigos lembrarão desse conto “Luz e Consequências”. Boa leitura.

PÁGINA 01

PÁGINA 01

PÁGINA 02

PÁGINA 02

agosto 10, 2014 at 8:59 pm 5 comentários

Rascunhos 1 de 5 – Ghazulli

Pessoal,

Enquanto novos quadrinhos vêm, começo a postar aqui uma pequena série de contos ou peças literárias.
Boa leitura.

Rascunhos 1 de 5

GHAZULLI

Por Rita Maria Felix da Silva

Ele se chamava Ghazulli. Empunhou uma espada em batalha pela primeira vez aos catorze anos. Foi guerreiro destemido e renomado por mais cinco; mercenário, por outros dois; e — como aprendera que não se interessava por honras ou causas —, mas apenas pelo prazer de matar pessoas, tornou-se assassino de aluguel pelo resto da vida.

Ghazulli, que, com sua espada, abateu tantos homens e mulheres, até o dia, por volta de seus cinqüenta anos, no qual foi contratado para eliminar o notório feiticeiro Abraltamazur. Ao contrário de seus pares, aquele mago não se demorava em longos discursos de jactância e exibicionismo. Prontamente, atingiu o assassino com um sutil feitiço de transformação e ironia e voltou para sua cabana e seus estudos.

E agora, mesmo após três décadas, na desolação da eternamente congelada Planície de Azenite, a espada, que um dia foi o mortífero Ghazulli, ainda jaz na neve e, em seu silêncio metálico, clama aos deuses por ajuda, embora eles não pareçam muitos dispostos a escutá-lo. Um destino apropriado, alguns diriam, para alguém que viveu toda uma vida pela espada.

FIM
Dedicado a Paulo Castilho

agosto 5, 2014 at 5:18 am 1 comentário

Bizarrias 2 de 7 – O Policial José Chega em Casa Mais Cedo


Oi, pessoal,

O primeiro Bizarrias teve um boa acolhida (inclusive vieram alguns comentários quem me deixaram muito orgulhosa). Tive sorte de poder contar com a arte maravilhosa de Clayton InLoco.

Agora posto o segundo Bizarrias, dessa vez a arte é do também muito talentoso Renato Lima, o desenhista e roterista dos Pocket Comics, uma da melhores coisas que já foi e, graças ao deuses, é publicada no Facebook.

Boa leitura.

Final_Bizarrias_02_WEB

julho 24, 2014 at 4:46 am 2 comentários

Bizarrias 1 de 7 – A Pequena Ludumila Lendo


Olá, pessoal,

Logo, logo, assim queiram os deuses, poderei postar aqui novos textos e novas tiras das séries “Kika e Morgana” e “As Lições de Mestre Ogeid”.

Assim, para esta atualização, posto o começo de uma nova série de tiras: “Bizarrias”. A arte é do notável Clayton InLoco, criador, desenhista e roteirista de “Hurulla”, um dos melhores quadrinhos nacionais que já vi.

Boa leitura.



bizarrias 1 de 7

julho 3, 2014 at 1:44 am 1 comentário

Kika e Morgana -Tira 02

Oi, gente,

Com vocês, a segunda tira de Kika e Morgana. Em nome de mim mesma, de Adriana e Diego José, obrigada por aqueles que gostaram da primeira tira. Temos pelo menos mais uma tira com esses personagens em nosso planejamento.
Boa leitura!
Kika e Morgana 02

maio 31, 2014 at 5:10 am Deixe um comentário

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