Dois textos para o Natal
Pessoal,
Novembro e dezembro têm sido meses bem difíceis para mim em todos os campos e isso, naturalmente, interfere em meu trabalho literário. Assim, peço desculpas aos leitores pelo atraso nas atualizações.
Tentando superar essa fase complicada, volto a atualizar o site. Também voltei a traduzir quadrinhos, algo que também adoro, mas ainda devo alguns textos, um deles a um amigo aqui na Internet. Mas pretendo resolver essa pendência até amanhã.
Como um presente de Natal, atrasado, para meus leitores, esta atualização vai com dois textos.
O primeiro, “Anqueu e Ketelyn”, conclui a “Duologia do Orgasmo”, iniciada no post anterior com “Tabu Divino”. Já tive a oportunidade de explicar que, ambos os textos, e aquele de que falarei no parágrafo abaixo, são resultado de exercícios literário na Oficina de Escritores, um grupo de autores na Internet ao qual tenho a honra de pertencer. ” Anqueu e Ketelyn”, é uma idéia que o tempo não me deixou aproveitar nesse exercício.
“Pequenas Bombas Biológicas” é meu texto de Natal. Deveria ter sido para um exercício na Oficina de Escritores com o tema “Estranho Noel”!, porém, não consegui participar.
Feliz Nata e o melhor ano novo para todos. Muito obrigada pelo carinho de vocês em 2011.
Beijos
Rita
ANQUEU E KETELYN
Por Rita Maria Felix da Silva
Em algum ponto remoto de sua história, o povo do Planeta Gumuntaga foi escolhido pelos Deuses para se tornarem imortais e eternamente jovens; livres das doenças, da fome, do sono e de qualquer mal ou fraqueza que ainda afligem outros seres menos afortunados.
Todavia, as divindades eram, por sua própria natureza, obscuras, e, pelo que haviam oferecido, apenas uma regra impuseram, como mandamento sagrado:
Entre aquele povo, ninguém poderia copular. E, sendo os deuses também caprichosos, jamais tentaram explicar qualquer motivo para essa proibição.
Grato e temeroso, o povo obedecia e aproveitava a condição paradisíaca que lhes fora concedida. Assim foi por muito tempo.
Porém, certa vez, Anqueu e Ketelyn reviraram livros antigos e proibidos e souberam de coisas abandonadas há muitos ciclos solares.
Ele e ela, ignorando a tradição e a prudência, abraçaram para si um sentimento já esquecido pelo seu povo e se apaixonaram.
Então, afastaram-se de todos, encontraram-se em segredo e deitaram-se e copularam, até chegarem naquela palavra perdida chamada “orgasmo”. Quando terminaram, ambos tinham um sorriso no rosto e a maior felicidade que já puderam sentir.
Porém, logo começaram a sentirem-se estranhos, gritaram de dor pela primeira em uma eternidade e rapidamente envelheceram e definharam, até que, daqueles amantes tudo o que restava eram dois cadáveres ressequidos.
Breve, ou melhor, no espaço de tempo que um humano chamaria de “poucas horas”, um destino exatamente igual atingiu todo o povo de Gumuntaga.
FIM
Dedicado a Eric Novello
PEQUENAS BOMBAS BIOLÓGICAS
- Um Inesperado Conto Natalino –
Por Rita Maria Felix da Silva
Bem no centro do universo, num lugar sem nome, ficava um disco prateado cujo raio não era menor que o da Via Láctea. No meio exato de tal lugar, podia-se ver o trono de Zeus, Rei dos Deuses.
Quase na borda desse disco prateado, estava o escritório do ogro Svdar, que trabalhava para Zeus. Ele não saberia dizer quando começara nesse emprego, afinal, o pagamento (“juventude e vida eternas, enquanto seu desempenho for satisfatório”) ajudava a atrapalhar sua memória.
Naquela ocasião, o ogro checou os relatórios mais uma vez. Queria ter certeza das conclusões, afinal o Chefe não gostaria de enganos num assunto grave como esse. Estava tudo certo. Suspirou preocupado.
Juntou as três páginas do documento, enrolou e guardou-as num tipo de cilindro feito com a pele cinzenta de algum animal. A extremidade de cima ele fechou com uma tampa de madeira. Emitiu um assovio composto de quatro notas musicais e, quase imediatamente, um duende-mensageiro apareceu.
— Leve isso para o Chefe. — disse Svdar, enquanto entregava o cilindro ao mensageiro.
A pequena criatura partiu ligeira. Mesmo a mais rápida das máquinas já criadas pelos humanos demoraria talvez uma eternidade para cobrir a distância entre o escritório de Svdar e o trono do Rei dos Deuses, mas aqueles duendes-mensageiros eram as coisas mais velozes que se possa imaginar, e a mensagem chegaria a seu destino em pouquíssimo tempo.
O ogro sentou-se de volta à escrivaninha e começou a rascunhar cálculos. Era uma situação bastante séria e seu Chefe iria querer propostas de medidas bem elaboradas para lidar com o assunto. Enquanto escrevia, lembrava de trechos do documento que enviara a seu mestre:
“(…) a recente vitória das Divindades, sobre vosso comando, na guerra contra os demônios, o que, finalmente, trouxe a extinção à desprezível espécie demoníaca. Obviamente uma minoria de Deuses, mais liberais, pode queixar-se alegando ‘genocídio’, porém, é uma minoria inexpressiva, indigna da atenção de Vossa Majestade.
O problema, contudo, é que o conflito liberou uma gama imensurável de energias desagradáveis e algumas entidades menores acabaram sendo afetadas, especialmente aquelas que são mais queridas pelos mortais. Temo o quanto isso poderá acarretar de baixas entres os humanos (solicito que analise minhas estimativas sobre o assunto). Entre os seres afetados, chamo grave atenção a Yur-Yulek-Wantabi, mais conhecido pelos habitantes da Terra como Papai Noel…”
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Noite da véspera de Natal…
Um gargalhante e enlouquecido Papai Noel cruzava os céus em seu tradicional trenó puxado por renas.
Dessa vez, porém, ele atirava pequenas bombas biológicas, contendo uma versão magicamente alterada da Peste Bubônica, para que esta pudesse se espalhar meramente pelo ar, o que provocaria a maior epidemia que este mundo já vira.
FIM
Dedicado a Al Reiffer
Tabu Divino
TABU DIVINO
Por Rita Maria Felix da Silva
Arin-Kipak, Deusa dos Céus Tempestuosos, e Yon-Anru, Deus dos Mares Revoltos, atingiram o orgasmos juntos. Ele a beijou, rolou para o lado, e então disse:
— Em toda a eternidade, quantas vezes eu e você já copulamos?
— Pouquíssimas.
— Não entendo: enquanto os mortais têm relações o tempo todo, nós, divindades, sofremos com essa lei insana nos limitando. Alguém, pelo menos, sabe o porquê?
— Ninguém. Esquece isso.
Ela o beijou de volta e ambos se abraçaram e adormeceram.
E, em algum lugar do multiverso, poucos instantes atrás, um mundo, habitado por uma cultura antiqüíssima, havia explodido.
FIM
Dedicado a Henrique Kipper
Tirinhas da Revista Alfa Eridani
Pessoal,
Há algum tempo, a revista virtual argentina Alfa Eridani publicou estas tirinhas, escritas por mim e desenhadas por Jose Beltramo. Como são praticamente desconhecidas dos leitores daqui do Brasil, posto-as para vocês. Boa leitura.
Beijos
Tirinhas “Olhos no Escuro”
Oi, pessoal.
A atualização de hoje vai ser um pouquinho diferente:
ao invés de um conto meu, postarei os quadrinhos que eu e a escritora e ilustradora Adriana Rodrigues (Strix Van Allen) fizemos algum tempo atrás. É um trabalho que me agradou muito fazer, parte porque Strix é uma ótima amiga, parte porque o resultado me agradou. Eu e Strix pretendemos retomar essas tirinhas, estamos aguardando só a oportunidade para tal.
É só clicar nas minituras para abrir a imagem.
Os leitores mais atentos irão perceber que a idéia é satirizar o universo da Fantasia. Boa leitura!
Dia dos Mortos
DIA DOS MORTOS
Por Rita Maria Felix da Silva
A estranha anomalia nos céus de todo o mundo.
Ruy Castilho olhou para ela e depois para suas próprias mãos. Lembrava do acidente de trem em Málaga. Depois tudo ficara escuro. Tinha certeza que havia morrido. Não compreendia como estava ali.
Procurou por amigos, conhecidos e parentes, que deviam ainda estar vivos, mas nada achou.
Conversou com muitas outras pessoas como ele, que também sabiam estarem mortas, e elas igualmente não encontraram ninguém vivo.
Muitos mortos celebravam terem o mundo inteiro só para si. Outros se desesperaram por não saberem o que fazer. Ele foi uma daqueles que caminhou sem rumo ou motivo, pois aquela situação insólita roubava-lhe o entendimento e as palavras.
Foi assim durante 24 horas, até que a anomalia desapareceu e Castilho e todos os outros se dissiparam de volta ao esquecimento.
Então, por toda a parte, sete bilhões de vivos reapareceram sem saber onde estiveram por todas aquelas horas. O “Dia dos Mortos” havia acabado.
FIM
Dedicado a Clinton Davisson
QUESTÃO TRABALHISTA
QUESTÃO TRABALHISTA
Por Rita Maria Felix da Silva
ATO ÚNICO
[Escritório de Panzhur]
CENA I
(Panzhur e Vastir)
(Vastir entra no escritório. Panzhur está sentando à mesa lendo documentos).
(Vastir) — Chefe…
(Panzhur) — “Chefe”?
(Vastir) — Desculpa. Benevolente Mestre Panzhur….
(Panzhur, sorrindo) — Melhorou. Fala!
(Vastir) — É o Benemudes…
(Panzhur) — Que é que tem aquele animal fedorento?
(Vastir) — Reclama o tempo todo que está há dez translações na mesma função. Diz que é preconceito!
(Panzhur, indignado) — O que?! Some daqui, vai trabalhar. Depois resolvo isso.
(Vastir sai)
*
CENA II
(Panzhur)
(Panzhur, monologando revoltado) — Benemudes…. O mundo daquele verme reclamão nem existe mais. Devia mandar matá-lo, pois não há lei para proteger aquela monstruosidade. Preconceito? Era para ele me agradecer por deixá-lo juntar excrementos. Afinal, que outra empresa daria emprego a um humano?!
FIM
Dedicado a Jean Gabriel Álamo
A GALERIA
Pessoal, ainda devendo a vocês a conclusão de “Trinca de Ases”. Perdoem-me. Probleminhas técnicos, mas virá na próxima semana. Hoje deixo vocês com “A Galeria”. Beijos. Rita
A GALERIA
Por Rita Maria Felix da Silva
A voz do advogado era monótona, áspera e deixava escapar um tom de falsidade. Ayla sentia-se incomodada enquanto aquele homem falava:
— Os termos são claros, Sra. Mitzis. No testamento, seu pai, o Barão de Lankera, deixa-lhe todo o patrimônio. A única condição é que mantenha esta galeria. Isso concluí meu trabalho. Passar bem.
Inquieta, Ayla Mitzis tentou dormir aquela noite na mansão. Há dez anos, quando as diferenças entre ela e o pai tornarem-se, numa hipótese otimista, além de qualquer conciliação, o Barão expulsou-a dali, deserdou-a e jurou querer vê-la morta. Não havia ninguém no mundo que a odiasse mais. Então, por que mudar o testamento e beneficiá-la agora? À noite, que parecia estranhamente silenciosa, não deu resposta alguma.
Pensou na galeria no porão. 64 quadros. Gravuras pintadas pelo próprio Barão, emolduradas e cobertas com um estranho vidro azul. Contava-se muita coisa sobre aquele nobre, diziam que era um mago e ajudava pessoas aprisionando o medo delas. Bobagem supersticiosa! Ayla nunca deu importância a essas histórias.
Fechou os olhos pedindo que o sono viesse logo, mas, então lembrou do quadro número 31… “Sra. Nadiya Nikolayevna Korovin”… A imagem de um monstro indizível… O vidro trincado. Escutou algo se despedaçar, como uma enorme vidraça atacada com fúria.
Para a polícia, os empregados da mansão contaram sobre barulhos animalescos e gritos horríveis, mas a porta do quarto de Ayla estava trancada e nada que eles fizeram conseguiu abri-la.
Após alguns minutos, a porta destravou-se, como por mágica, e o corpo de Ayla Mitzis, viúva de Karl Mitzis (famoso comerciante e o maior inimigo do Barão de Lankera), foi encontrado em exatos 128 pedaços.
Na galeria do porão, um quadro despencara da parede e sua moldura jazia no piso de mármore. Vidro azul espalhado por toda a parte.
FIM
Dedicado a Alex Bastos
AKMANDRITAS
AKMANDRITAS
Por Rita Maria Felix da Silva
Há três décadas, nosso universo entrou em interface com um outro. Segundo os cientistas, o evento teve uma duração exata de vinte e dois minutos, mas foi o suficiente para que as monstruosidades Akmandritas — bípedes, três metros de altura, quatro braços, cinco olhos, pele reptiliana, despedaçam você em instantes — infestassem a Terra e quase dizimassem a humanidade. Perdi minha esposa e três filhos. Caí em depressão por um ano inteiro. Em algum momento, me ergui e tentei continuar sobrevivendo. Fico lembrando daquela frase na música de Omar Klavad: “de que adianta chorar?”.
Meu nome é Emílio de Belenoi. Moro na cidade-domo, num lugar uma vez chamado Bolonha, Itália, junto com todos os humanos que restaram. Claro, há momentos em que precisamos sair. Felizmente para isso um gênio indiano inventou esse dispositivo, em forma de cinto, que “congela” os monstros no tempo por uns segundos, o bastante para fugirmos. Não sei explicar a Ciência envolvida (antes da queda da humanidade, eu curtia Futebol, não Física Quântica). Algum engraçadinho começou a apelidar essas máquinas de “refrigeradores” e o nome pegou.
Ontem, eu conversava com Edmond Vonbard, meu amigo desde a adolescência e a pessoa mais honesta que conheço. Por isso, aceitei o negócio que me propôs: trocar o “refrigerador” dele, um modelo mais antigo, pelo meu e, em contrapartida, ganhei CDs do Black Sabbath. Nem sonhava que ainda existissem.
Um minuto atrás, entrei nas ruínas de uma biblioteca e ouvi um Akmandrita rugir. Apertei o botão em meu cinto, mas, ao invés do ruído da “distorção temporal”, veio apenas o cheiro de fios queimando. O monstro avança para mim. Parece que finalmente vou reencontrar minha família. Meu último pensamento é “Vonbard, seu ladrão!”.
FIM
Dedicado a Raven Ravenna
Trinca de Ases II – Lothar
TRINCA DE ASES
Por Rita Maria Felix da Silva
II- Às de Ouro
“Lothar”
Vivia caído bêbado perto do único bar daquele vilarejo ou mendigando para beber. Ninguém lhe sabia o nome, mas atribuíam a ele apelidos horríveis.
Era a diversão daquele povo. Crianças e adultos batiam-no até que sangrasse. Urinavam e defecavam sobre ele, quando o encontravam adormecido na rua. Um dia, Vó Quitéria até jogou-lhe água quente.
À noite, refugiava-se num canto escuro. E, então, lembrava: ele era o Mago-Rei Lothar, uma vez o todo-poderoso monarca do mundo de Ganamon, até que seus inimigos destronaram-no e baniram para este terrível novo mundo, onde a magia não existe.
No escuro, lembrava e chorava, rezando por salvação a deuses que pareciam não mais existir.
FIM
Dedicado a Nana B. Poetisa
A seguir: Trinca de Ases III – Ptolomeu
Trinca de Ases I – Ocsur
TRINCA DE ASES
Por Rita Maria Felix da Silva
I – Às de Espadas –
“OcSur”
Festa no prédio das Nações Unidas. Lorde Ocsur, Embaixador do Império Yandriita, sentia-se tonto e estranho, mas, literalmente, brilhava de felicidade. Segurava o copo de vinho em um dos quatro tentáculos. Bebida maravilhosa. Não havia nada assim em seu mundo.
Mas então caiu. A pele verde definhou para azul e ele faleceu. Involutariamente, Ocsur acabara de descobrir que sua espécie era sensível à substância chamada álcool. Terminara de modo trágico o primeiro contato entre humanos e uma espécie alienígena.
Ignorando as explicações dos terráqueos e incentivado por conselheiros radicais (que vociferavam “Assassinato!”), o Imperador enviou contra a Terra a frota guerreira yandriita.
Certamente bebidas alcoólicas não fazem muito bem a relações interplanetárias.
FIM
Dedicado a Maya Blanco
A seguir: Trinca de Ases II – Lottar



