Amórficas 06 de 07 – As Lições de Mestre Ogeid Zakharov

Oi, pessoal,

Para a atualização desta semana, trago uma história em quadrinhos de um único quadro. O texto é meu e a arte é do (brilhante) Diego José.
Uma curiosidade para meus leitores mais atentos: Olga Charpentier (cujo trecho de memórias aparece nesta história), é a mãe de Morton, personagem título do conto de mesmo nome.
Boa leitura!
Beijos
Rita
amórficas 06 de 07

abril 6, 2014 at 3:42 am Deixe um comentário

JASON

JASON
Por Rita Maria Felix da Silva

Certa manhã, Jason, um pequeno demônio adolescente, de pele azulada, como é comum a maioria dos habitantes da Terra de Twanlandi, uma região na fronteira Leste do Inferno, a mesma que separa aquele reino lamentável e o Céu, acordou com uma nova idéia na cabeça.

Por que os anjos devem ser uma espécie popular e querida pelos humanos, enquanto aos demônios resta serem desprezados e amaldiçoados por todas as bocas? – Indagou-se ele. Isso precisava acabar. Que tal pôr fim a essa guerra sem sentido contra a espécie angelical, um conflito antigo e caduco, mantido por um ódio e revolta que apenas os mais velhos e caducos ainda retem no coração? Uma batalha sem fim que esgota os recursos do Inferno e torna miserável a vida de toda a espécie demoníaca… Se os demônios pudessem mudar sua conduta, parassem de seguir os preceitos dos mais velhos e passassem a se mostrar como algo melhor para a humanidade, algo que os humanos poderiam aceitar e até amar…

Entusiasmado, Jason correu até Kakanty, outro demônio adolescente e seu melhor amigo, que trabalhava com o pai, numa das forjas do Inferno (porque, como é sabido por todos, entre os demônios estão os melhores ferreiros do universo).

Já diante de Kakanty, após terminar seu pequeno, otimista e entusiasta discurso sobre sua idéia extraordinária, sem esquecer-se de enfatizar que ela traria grandes mudanças e um tempo melhor para todos, Jason olhou fixamente no rosto do amigo esperando uma resposta…

Kakanty apenas pegou um tridente recém forjado por ele mesmo e atravessou o peito de Jason, que, numa mistura terrível de dor e perplexidade, caiu ali mesmo e sangrou até perecer.

Kakanty olhou para o cadáver do amigo e, silenciosamente, pediu-lhe perdão. Depois removeu o tridente, atirou o corpo nas chamas da forja e suspirou entristecido… Era como seu pai havia lhe ensinado: as coisas são boas do jeito que são. Por que mudá-las? Para o bem de todos, o status quo deve ser mantido.

FIM

Dedicado a Diego José

março 26, 2014 at 6:12 pm 3 comentários

ALMUD-ARIN



Bem, pessoal,

Depois das últimas postagens terem sido textos meus antigos que nunca haviam passado por aqui, posto este, um microconto que escrevi perto do fim do ano passado na Oficina de Escrita e Análise Paralela, no Facebook, portanto, um texto praticamente inédito.

Boa leitura.
Beijos
Rita



ALMUD-ARIN

Por Rita Maria Felix da Silva

Dizem que Almud-Arin, guerreiro lendário do Oriente, não despertou aquela manhã. Foi encontrado na tenda em que passara a noite: sua própria espada, uma arma com a qual vencera uma infinidade de batalhas, agora estava transpassada em seu coração.

Ausente para nunca mais ser encontrada estava Lorilin, esposa e refém daquele conquistador. Conta-se que Almud-Arin, o mais feroz guerreiro que já se viu, apesar de amá-la ardentemente, era cruel de modo demasiado com ela…

FIM

Dedicado a Mauricio Wajciekowski

janeiro 12, 2014 at 3:59 am 2 comentários

MADELEINE, A ÚLTIMA

Pessoal,


Bem, continuo naquela minha idéia de postar aqui textos meus que ainda não haviam passado por este blog e, por essa razão, não devem se conhecidos de meus leitores mais novos.

Nos tempos em que o Orkut ainda não havia sido superado pelo Facebok, dois leitores fundaram comunidades lá com meu nome, para postarem textos meus e outros poderem comentar (sim, fiquei muito honrada com isso). Um das comunidades era administrada pelo amigo Alison (Tutankhamen) e eu, periodicamente, enviava a ele textos que escrevi para ficarem exclusivos daquela comunidade. Foi assim com esse aqui.

Se você já é leitor/a de meus textos desde já algum tempo, muito provável já teve ter visto algo neles sobre os Whitehills, uma das principais famílias que aparecem em meus contos (embora, eu goste mais dos Winterwoods). Este conto tem uma importância muito grande nesse universo deles mas lembre-se que estamos falando de um multiverso e estou contando uma das versões, pode haver outras). Em teoria, é o conto mais distante, cronologicamente falando em relação aos demais. Daí, Madeleine ser, em teoria, a última Whitehill. Se gostarem dessa Whitehill, procure na Internet os outros contos com eles.

Bem, boa leitura.


MADELEINE, A ÚLTIMA

Por Rita Maria Felix da Silva

O Dr. Atros Farazyl ativou um dos dez biochips implantados em seu cérebro, acessou a rede de computadores do Sistema Médico Pentagalático, comparou resultados, revisou dados e chegou à mesma conclusão da noite anterior.

Sua pele ficou ainda mais azul que o normal. Em sua testa, o terceiro olho, uma obra-prima da cibernética, piscava. Estava nervoso. Apesar de todo seu profissionalismo, ainda sentia pena dos pacientes, em especial com um diagnóstico daqueles. Piedade. Um sentimento que já devia ter superado (lembrou de seu irmão, Zarkus Farazyl, que se submetera a uma cirurgia de extirpação das emoções. Lamentavelmente, Atros era religioso demais para fazer algo assim).

Perto dele, Kodos Farazache, que esperava sentado no consultório, interviu:

— E então, Doutor, o que me diz?

O Dr. Farazyl apoiou uma das mãos no queixo, a outra na coxa direita e descansou os outros dois braços. Por um instante, ponderou sobre Farazache, um robô de última geração, parte orgânico, parte plástico e metal. Agora o Conselho Administrativo Pentagalático permitia a seres como aquele o status de cidadãos. Farazache até mesmo ocupava um alto posto: emissário do Conselho. Uma geração atrás isso teria sido impossível. “Robôs que não são mais escravos? Heresia!”, pensou Farazyl, “Um dos males da modernidade!”

— Não há dúvida em meu diagnóstico, — disse ele — embora, não seja possível determinar qual a enfermidade, talvez algum problema genético, a paciente…

— Madeleine.

— Sim, Madeleine, morrerá em breve e de forma agoniosa. O quadro é irreversível. Lamentavelmente, a Ciência Médica tem seus limites. Para evitar tanto sofrimento, eu recomendaria uma cirurgia cerebral que cancele a capacidade de sentir dor. O método mais comum também a deixará incapaz de ter qualquer emoção. Uma possibilidade alternativa seria a eutanásia.

— Ela jamais aceitaria essas coisas — esclareceu Kodos.

— Bem, como paliativo, posso receitar alguns analgésicos. Recomendo também acompanhamento psicológico.

— Doutor, ela fez questão de procurá-lo e o Conselho está muito interessado nesse caso… O senhor é o melhor médico desta Galáxia, esperávamos que pudesse fazer algo…

— Na verdade, no ranking de minha categoria, sou cotado como o melhor das Cinco Galáxias Unidas, mas milagres estão além de minhas capacidades… — esclareceu o médico.

Dr.Farazyl, o seu currículo é mais que notável e, bem, não sei se o senhor, considerando quem é a paciente, percebe a gravidade do assunto…

— Sr. Farazache, estou ciente que Madeleine trata-se do último ser humano vivo. Mas seres vivos morrem, espécies são extintas. O que há para se fazer? O Universo é assim.

— Doutor, estamos falando da espécie humana, cujas realizações tornaram possível toda a nossa civilização pentagalática. Madeleine é considerada um patrimônio histórico e cultural vivo pelo nosso governo. Não pode terminar desta forma.
O Doutor Farazyl começou a guardar pequenas esferas metálicas de gravação de dados na gaveta de uma mesinha. Aquela conversava o aborrecia.

Sr. Farazache, — continuou — Sempre considerei como exageradamente romântica essa visão dos historiadores sobre a humanidade. Contos de Fada, se me permite dizer. Aliás, posso perguntar…

— Sim…?

— Qual sua relação com a paciente?

— Ela é minha criadora.

O Dr. Farazyl reprimiu um sorriso:

— Ah, sim, talvez você esteja familiarizado com o trabalho de meu primo, o Dr. Yrkan Farazyl, que se dedica a Psicologia aplicada a robôs. Li uma monografia dele sobre essa fixação doentia de autômatos por seus criadores.

— Não é doentia… Eu a amo. Existo graças a ela e sou feliz por isso. Não posso simplesmente deixá-la morrer.

— Se isto puder consolá-lo, entenda que nenhum médico poderia fazer mais neste caso. Sua Madeleine é parte de uma espécie que terminou, não lhe parece inevitável que ela pereça também?

Kodos Farazache nada disse, mas a dor naquele rosto parecia tão real… “Real demais para uma máquina. Que sacrilégio!”, ponderou Farazyl, e sua cauda moveu-se nervosamente.

— Aliás, Sr. Farazache, se permite perguntar… — retomou a palavra o Dr. Atros Farazyl.

— O que?

— Me chamou a atenção o sobrenome da paciente.

— Em geral, sempre olham isso nela. — comentou tristemente Kodos.

— Ora, é algo folclórico, — comentou o doutor — há uma infinidade de histórias relacionadas à família de sua criadora. A maioria relatando coisas terríveis. Já me diverti muito lendo sobre isso.

— Sempre questionei a veracidade dessas lendas e, em muitas delas, os ancestrais e parentes de Madeleine foram vítimas de má sorte e não se demonstraram “malignos” como tantos querem apontar. Se a conhecesse nem pensaria essas coisas.

— Ora, há contos sobre atos terríveis realizados pelos parentes de sua criadora. Se considerarmos tudo que de grandioso é dito sobre a espécie humana, como insistem vocês, românticos, não é irônico que tenha sido alguém dessa família a última sobrevivente daquela raça?

— Doutor, não quero perder tempo com discussões filosóficas. Eu sou tudo que ela ainda tem nesse universo e ela é tudo que tenho e vai morrer. — declarou com infelicidade Kodos Farazache.

Atros Farazyl compadeceu-se dele, mas detestava demonstrar sentimentos em público.

Sr. Farazache, realmente lamento, — disse — se houvesse algo, no âmbito da Ciência Médica, que pudesse fazer, eu faria. Sua Madeleine está aí fora, não é? Quer que eu conte a ela?

— Não, agradeço, mas me parece mais correto que eu conte. Obrigado por tudo, Doutor. Adeus.

Kodos Farazache levantou-se e foi à sala contígua ao consultório. O Dr. Atros Farazyl sentiu-se inibido em cobrar-lhe o valor da consulta. Faria isso do Governo e, dada a situação, acrescentaria uma taxa de 30 % sobre o valor convencional de seu atendimento médico.

Naquela noite, após chegar a casa, beberia muito. Tudo aquilo… O fim de uma espécie… A incapacidade de evitar isso… Incomodava-o de modo incomum. Ter emoções era algo desagradável e profissionalmente desinteressante. Amanhã procuraria seu sacerdote e discutiria a possibilidade de alguma brecha doutrinária nos Trezentos Mandamentos, algo que o permitisse submeter-se à mesma cirurgia do primo Zarkus.

Na outra sala, Kodos Farazache aproximou-se de Madeleine Ann Whitehill. Ela estava sentada, esperando por ele, o coração ansioso por uma chance de sobrevivência.

Kodos baixou a cabeça e apenas disse:

— Madeleine, há algo que preciso te contar…

FIM

Dedicado a Alison Gonçalves (TutanKhamen)

Você pode saber mais sobre os Whitehills em:
Whitehills

dezembro 22, 2013 at 2:33 am Deixe um comentário

PROFESSORA VANDELLIS


Olá, pessoal,

Primeiro quero agradecer-lhes por estarem de volta a meu blog, lendo mais um post. Vocês me incentivam a sempre continuar escrevendo, sabiam?

Bem, enquanto vou cuidando da minha vida no mundo físico (o mais complicado dos mundos, eu diria) e vou retomando devagarinho um projeto literário meu que estava um pouquinho parado (além de continuar escrevendo, junto com um amigo, letras para músicas, sério,ah e concluí um texto sobre zumbis recentemente), prossigo com aquela idéia de trazer a este blog aqueles meus textos que nunca foram postados aqui antes e, por essa razão, podem não serem conhecidos de meus leitores habituais.

Dessa vez, trago de volta “Professora Vandellis”. Este texto foi o segundo que tive oportunidade de publicar na revista Scarium, se não me engano no nº 20. A temática da edição era lobisomens e redigi este. Embora vampiros sejam um dos temas mais tradicionais e inseridos nas raízes da Internet, agrada-me muito também histórias de lobisomens, talvez porque tenham algo de muito primal espelhando a natureza humana…

Aproveitei para refletir nessa história um pouco de meu mundo físico (afinal, como alguns sabem, sou professora aqui fora, mas não de História, e sim de Matemática, Química e Física), embora, graças aos deuses, minha realidade escolar não é tão delicada quanto a de minha colega fictícia Amara Vandellis.

Boa leitura! Beijos!

Rita


PROFESSORA VANDELLIS
Por Rita Maria Felix da Silva

Prólogo

O relógio toca às seis da manhã. Amara Vandellis desperta. O sono foi intranqüilo, como tem sido há anos. Sonhos ruins causados por memórias que a atormentam, lembranças de como as coisas eram antes da Guerra… Antes do Dia da Ascensão.

Ela se levanta. Toma banho. Arruma-se. Aula marcada para 07:30 h. Revisa o assunto. Faz novas anotações. Organiza o material que irá expor aos alunos. Primeiro dia do ano letivo. Fica nervosa. Mais um ano…

Abre a persiana. Olha pela janela. Esta cidade já foi chamada de Blumenau. No tempo dos humanos. Um lugar que ela amava. Agora tem um novo nome… Algo que soa como um rugido.

Amara vai até o armário. De lá pega uma relíquia de uma civilização morta. É de madeira, atado a um fio de algum tecido que não se fabrica mais. Cabe na palma da mão. Chamavam de crucifixo. Mais um ano letivo… Ela reza pedindo forças para agüentar, continuar fingindo e não ser descoberta.

Guarda o objeto. Embora seja a única lembrança que resta de sua irmã (destroçada na Guerra por um monstro que nem deveria existir), ela não se atreve a sair com isto. Afinal, lobisomens não têm religião.
Em silêncio, vai à escola.

Parte I

 

Amara observava sua platéia. Mais de quarenta alunos, a maioria novatos.

— Bom dia a todos e boas vindas ao primeiro dia de aula. — Ela disse e passou os olhos pelos adolescentes. Lobisomens, todos eles, a espécie dominante deste mundo. Percebeu que havia cochichos entre os estudantes. Previsível: eles estavam naquela forma lupino-humanóide na qual passam a maior parte do tempo, pois para este povo, depois da Ascensão, usar a forma humana era considerado vergonhoso. Amara, porém, não tinha escolha. Vivia para sempre na forma humana — Alguma pergunta antes de começarmos?

Silêncio. Um mau sinal. O coração de Amara ficou preocupado. Normalmente, nesse primeiro dia, os alunos estão cheios de perguntas. Bem, devia continuar. Melhor não dar atenção aquele pressentimento lá no fundo do cérebro:

— Eu sou a Professora Amara Vandellis e leciono História nesta sala. Conforme devem saber, semana que vem teremos as festividades do Dia da Ascensão, o feriado mais importante de nossa cultura, e o Diretor me orientou que iniciasse as aulas com esse assunto. Alguém poderia me falar algo sobre o Dia da Ascensão?

A resposta foi o som de um arroto. Os estudantes gargalharam. Amara, surpresa, procurou ver de onde aquilo viera. Um aluno de pêlo branco riu e ergueu o braço. Ela não gostou disso. Lobisomens de pelagem branca são os mais difíceis com quem se lidar.

— Desculpa, professora, mas é que meu estômago tá detonado por causa da mão que devorei de um babaca na luta de ontem. O Dia da Ascensão não foi quando nós fodemos os humanos?

— Uma forma muito rude de definir, senhor…

— Ah, vai dizer que não sabe quem sou? — indagou o aluno, enquanto abaixava o braço — O nome Karavetes será que é alguma coisa para a senhora…?
Então, ela se lembrou dele. Dos noticiários esportivos. Milton Karavetes, campeão da Liga Juvenil de Luta Livre, ídolo dos jovens, encrenqueiro por natureza… E da família Karavetes… Uma gente que se acha dona do mundo. Por que o departamento de matrículas não avisou sobre esse aluno?

— Senhor Karavetes, a despeito da influência de sua família e de seus próprios méritos como esportista…

— Ei, professora, eu sou uma celebridade! — disse Milton e os estudantes gritaram e grunhiram em aprovação.

— Devo lembrá-lo — replicou a professora — que prestígio familiar e conquistas esportivas não vão permitir a você tratamento privilegiado? Nesta escola, levamos os estudos a sério e esperamos que todos os alunos façam o mesmo. Fui clara?

— Clara como um peido, professora! – ironizou o rapaz-lobisomem e mais gargalhadas romperam na sala.

Amara se conteve. Se o Diretor Degeytier estivesse na sala, pediria a ela que não entrasse em conflito com um aluno logo no princípio de um ano letivo.

— Bem, — continuou — o Dia da Ascensão é a data que marca o início da grande ofensiva dos lobisomens contra os seres humanos. Ocorreu há trinta anos, quando o Alto Conselho Lupino, pressionado pelas facções mais radicais de nossa espécie, optou por revelar a existência de nosso povo e partir para uma guerra aberta que culminou com a extinção da humanidade e o domínio absoluto dos lobisomens sobre este planeta. Alguém poderia citar o nome de três generais lupinos que comandaram nossas tropas no Dia da Ascensão?

Um grunhido de deboche fez Amara, surpresa, virar sua cabeça. Era Karavetes.

— Ei, professora. Meu pai tem vídeos de antes da guerra. Os humanos eram uma espécie nojenta e desprezível! Não é mesmo, pessoal?! — e Mílton gritou virando-se para os outros estudantes e eles grunhiram em concordância.

Mílton, se tivesse se dado ao trabalho de ler sobre o assunto, saberia que nossos historiadores consideravam os humanos como adversários valorosos. Também apontam que a humanidade desenvolveu uma civilização notável.

— A professora é doida! Humanos eram merda! E somente uma aberração, um monstro, a senhora, a humanita, pra defender aquela escória! — vociferou o aluno.

Humanita! Um termo sujo dos lupinos para ofendê-la por sua condição.

— Garoto, não lhe dei o direito de me insultar. Sua ignorância pode ser gritante, mas devia saber sobre minha maldição: pouco antes da Ascensão, a magia retornou ao mundo. Nós, lobisomens, não somos capazes de manipulá-la (embora, paradoxalmente, é ela que permite nossas transformações), mas os humanos eram. Uma ironia é que, se tivessem mais tempo para aprender a manusear melhor a mágica, teriam nos derrotado e sobrevivido. Durante a Guerra, uma bruxa humana atingiu-me com um feitiço e é isso que me prende a esta condição. Todos vocês podem alternar entre a forma lupina e a humana, eu, porém, estou condenada a esta última.

— Há! A senhora parece muito humana para mim! É uma vergonha para nosso povo! — zombou Mílton.

— Mas eu não sou humana! Use seu olfato, sua intuição e outros sentidos e verá o que digo! Fui clara?

E o som de um peido, acompanhado por mais gargalhadas dos alunos inundou a sala.

Diante do olhar indignado da professora, Mílton falou novamente:

— Clara como um peido!

— Sr. Karavetes, creio que já se excedeu. Não sou paga para aturar sua insolência. Devo convidá-lo a deixar esta sala…

— É? — grunhiu o moço — E quem vai me tirar?

— Rapaz, não me obrigue a chamar a segurança da escola…

— Professora, a senhora não sabe com quem tá brincando. Sou campeão mundial e invicto da Liga Juvenil de Luta Livre. Participo de campeonatos paralelos também e já massacrei lobisomens adultos com três vezes meu peso. Tô cheio da senhora e dessa escola (não fosse meus pais eu nem ia vir pra essa porcaria) e doido pra descontar em alguém. Eu não tinha nascido no tempo da guerra, mas sempre tive vontade de arrancar a cabeça de um humano, mastigar as tripas e vomitar em cima do cadáver. A senhora parece humana demais pra mim. Vai servir.

E Mílton Karavetes rugiu e avançou sobre a professora. Os outros alunos observavam já certos do resultado. Em forma humana Amara não teria chance alguma.

Porém, no instante seguinte, a professora retirou algo do bolso do vestido verde e apontou o punho direito fechado para seu agressor. Mílton Karavetes foi inundado por um brilho elétrico e caiu urrando e debatendo-se, enquanto faíscas de eletricidade pipocavam pelo seu corpo.

Houve silêncio e então. Todos, incapazes de entender o que havia acontecido, olhavam para Mílton e para a professora. Foi quando Amara abriu a mão direita e mostrou um pequeno aparelho:

— Estudantes, esta engenhoca contém um microchip que adaptei e aperfeiçoei a partir de um projeto deixado pelos humanos. Esse dispositivo, adaptado para o sistema nervoso lupino… Bem, vocês viram o efeito. Acredito que pode vir a ser uma ótima arma de defesa pessoal em um mundo violento como o nosso, com a vantagem que não é letal. Nosso colega Karavetes vai estar recuperado em uma hora ou duas. Alguma pergunta?

E um dos estudantes gritou:

— Bruxa! A humanita lascou Mílton! Vamos pegá-la!

Uma multidão de lobisomens adolescentes atirou-se sobre a professora. Ela recuou aterrorizada, pois o microchip não poderia lidar com todos eles.

Todavia, um rugido estremeceu os ossos de todos, que se voltaram para a porta da sala, onde estava de pé um enorme e poderoso lobisomem de pelagem cinzenta, herói da Guerra de Ascensão, o mais caro e temido assassino do mundo, até se aposentar para dirigir esta escola: o Diretor Kurt Degeytier.

— Sr. Pablo Tarkino e Srta. Olga Derzhavin, — disse apontando para dois estudantes da sala — levem o Sr. Karavetes para a enfermaria. Sr. Garen Ordonax e Sr. Daniel Folador — ordenou olhando para dois outros alunos — bem como a professora Amara Vandellis, acompanhem-me até a Diretoria, agora! Os demais ficam de castigo nesta sala, sentados e em silêncio até segunda ordem. Não estou brincando: eu devoro quem se meter à besta.

Parte II

Na sala de espera, o cômodo imediatamente anterior à Diretoria, Amara precisou aguardar por uma hora, enquanto Degeytier interrogava os alunos Ordonax e Folador. Típico de Degeytier: fazer as pessoas esperarem ou responderem várias vezes as mesmas perguntas.

Os dois estudantes saíram da sala do Diretor e passaram pela professora. Estavam cansados, estressados e os olhos cheios de ódio por Amara. Lá de dentro a voz de Degeytier ordenou que ela entrasse.

— Primeiro, — começou o Diretor por trás de sua mesa em que os mais variados documentos escolares estavam arrumados em pequenas pilhas — quero que entregue esse “dispositivo”.

Amara obedeceu.

— Obrigado. — disse Degeytier ao receber o aparelho e guardá-lo numa gaveta. — Percebe as implicações do que aconteceu hoje? Você agrediu, com uma arma desconhecida, um estudante.

— Ele ia me matar. E, se já escutou aqueles dois alunos, não vai me dar a chance de contar meu lado da história?

— Amara, não acho necessário. — respondeu o Diretor — Apesar do preconceito contra você, é a melhor professora que tenho e jamais havia acontecido algum episódio tão sério quanto esse. Dava para escutar daqui o tumulto na sua sala. Corri preocupado para lá. Culpa desse idiota do Mílton Karavetes! Confio em você. Interrogar Ordonax e Folador foi mais diplomacia, para manter as aparências de líder democrático, se é que me entende.

— Entendo, sim, obrigada, Kurt. Se isso chegar ao Conselho Regional de Educação e Disciplina, eu assumo o que fiz, pois faria de novo.

— Fique tranqüila. Tenho amigos no CRED. Com a ajuda deles, o Conselho nem vai querer tratar desse assunto. O que me preocupa são seus alunos. Viu como esses jovens idolatram aquele imbecil do Mílton? E quanto aos Karavetes… É uma família muito complicada. Você atingiu um deles. Te aconselho a tomar muito cuidado a partir de agora.

— Não tenho medo deles. O que quero é voltar para minhas aulas.

— Isso é um pouco mais difícil… — comentou o Diretor.

— Eu preciso desse emprego. Você não vai me demitir só para agradar esses tais Karavetes, não é?

— Claro que não. Você fica. Aliás, já fez muito mais por esta escola que qualquer Karavetes metido. Vou colocar seus alunos para fazerem serviço comunitário. Bem, a reforma na ala noroeste da escola está atrasada e mão de obra adicional por uns três meses seria de grande ajuda… Isso deve acalmá-los.

— É, — a professora sorriu — Acho que merecem isso. E Mílton Karavetes?

— Já se recuperou e mandei para casa. Garoto forte. Falei com os pais por telefone. Mesmo eles entendem a gravidade do que o rapaz fez. Vão colocá-lo de castigo por quinze dias confinado na forma humana. Para ele, será como o Inferno!

— Nossa, eu realmente queria ter visto a cara dele quando soube do castigo! — ironizou ela.

— Não, a menos que você fosse bem sádica! Ah! Ah! Ah!

— E quanto a mim: posso voltar para as aulas que ainda me restam hoje?

O Diretor Degeytier parou de rir.

Amara, fiz o que pude nessa situação, mas, como te disse, nunca me ensinaram a fazer milagres.

— Não, entendi: se não vou ser demitida, como é que ficam minhas aulas? — indagou a professora.

— Vou te deixar afastada por umas duas semanas, afinal você tem férias acumuladas, só por esse tempo, para que a poeira desse assunto abaixe. A Professora Lúcia Maradias assume na sua ausência.

— Lúcia? — Amara quase gritou — Ela me odeia! É a maior preconceituosa sobre minha maldição! Comandando minha sala, com certeza vai me aprontar alguma.

— Calma. Vou ficar de olho nela e é quem tenho para te substituir. Faço o que posso.

— Ok, Kurt. Desculpa. É que aquela dali mexe com meus nervos.

— Eu sei. Vai para casa. Descansa esses dias.

— Bem, obrigada. Até breve.

Ela já havia se voltado para ir embora quando foi interrompida pelo Diretor:

— Amara, há outra coisa que quero te dizer…

— O que, Kurt? — indagou ela virando-se para ele.

— Bem… Saiba que o que direi não tem nada a ver com sua permanência na escola. É seu profissionalismo que garante isso.

— Ei, assim me deixa curiosa! O que é?

— Compreendo que você escolheu ser celibatária por causa de sua maldição… Mas gosto muito de você e sempre te admirei… Se você, algum dia, pudesse considerar o fim desse celibato. Eu não me importaria… Sinceramente… Eu te aceitaria com felicidade como uma de minhas esposas, mesmo você estando presa na forma humana…

Kurt … Isso é muito inesperado para mim. Você é um bom amigo, o melhor que tenho, fico honrada, porém… Presa nessa forma eu não me atreveria a me envolver com ninguém… Me perdoe se…

— Não, tudo bem… Esqueça o assunto… Vá aproveitar esses dias de descanso.

— Certo, eu… — E, por um momento, ficou em silêncio olhando para ele, como se procurasse a palavra apropriada, que, porém, jamais viria, pois não poderia contar-lhe a verdade — Sinto muito. Até logo, amigo.

Amara Vandellis se voltou e saiu. O olhar desolado de um silencioso Kurt Degeytier acompanhou-a. Ela não olhou para trás, preferindo não imaginar como deve doer o coração partido de um lobisomem.

Epílogo

De volta ao apartamento, Amara buscou o crucifixo com urgência e passou alguns minutos entre orações e lágrimas. Aquele aluno podia tê-la matado hoje. Ela nunca tinha submetido o microchip a um teste prático, deixara-o por acaso no bolso do vestido e só o acaso a fez lembrar-se do dispositivo naquele momento. Se tivesse falhado…

Continuar fingindo, continuar escondendo. Ela questionava a ética naquilo tudo, mas entendia que a escolha era manter a farsa ou ser assassinada. Apesar de tudo, ser mentirosa ainda era melhor do que tornar-se um cadáver.

Lamentava por Kurt, todavia como poderia atender ao desejo dele? Degeytier era um lobisomem, a espécie que destruíra os humanos, que assassinou Mariana, a irmã dela. Jamais conseguiria entregar-se a um deles.

Apesar dessa solidão imensurável e do medo doentio de ser descoberta, tinha muita sorte. Durante a Guerra, pouco depois de Mariana ser despedaçada, Amara descobriu algo de valor inestimável. O encanto correto e eficiente, um feitiço perpétuo que permitiria a ela fingir, ser percebida pelos sentidos dos lobisomens como uma lupina presa à forma humana. Depois foi só inventar uma história mirabolante, ser firme nas mentiras e assim vinha sobrevivendo neste novo e terrível tempo.

Mas Amara estava consciente que os lobisomens, até mesmo Kurt, iriam assassiná-la se descobrissem a verdade sobre ela.

O pior de tudo era aquela tristeza surreal, indefinível e desesperadora. Afinal, não era nada agradável ser o último ser humano do mundo.

Sentia-se cansada. Resolveu deitar. O sono logo veio, mas, previsivelmente, também voltaram os pesadelos. Mais uma vez, ela sonhava com o tempo antes da Guerra e de como tudo terminara de forma tão trágica…

FIM

Dedicado a Camila Fernandes

dezembro 10, 2013 at 4:17 am Deixe um comentário

Kaline


Bem, pessoal,

Seguindo aquela idéia de postar aqui trabalhos mais antigos meus que não haviam aparecido ainda neste blog, coloco agora um bastante especial:

“Kaline” foi uma fantasia escrita por mim e publicada na revista brasileira Scarium. Foi uma experiência fantástica participar da Scarium (edição 19) e ainda pude repetir esse prazer uma outra vez… O que fica para ser contado em outra ocasião, se não se importam.

Por muito tempo, não postei “Kaline” em lugar nenhum, exceto na Scarium, para não quebrar a exclusividade da revista, mas, com a afirmação positiva do editor de lá, posto este texto aqui.

Meus leitores mais antigos perceberão uma pequena surpresa que inseri no texto.

Boa leitura.


KALINE
Por Rita Maria Felix da Silva

Kaline Gan Amon levantou cedo, adiantou as tarefas de casa, mandou Lottar à escola e foi à vila, onde trabalhava na loja de encantamentos e poções.

Outro dia comum. Nesta época do ano, freguês entrar naquele estabelecimento era raro. Com muitas horas-extras acumuladas, convenceu o gerente, um troll resmungão chamado Crakafint, a liberá-la mais cedo.

Correu ansiosa para casa. Queria trabalhar no jardim.

De sua mãe, Kaline quase nada herdara, exceto o gosto por cuidar da terra. O jardim era a parte da casa de que mais gostava. Hoje fazia exatamente cinco anos que começara as primeiras mudas, vasos e canteiros, enquanto seu marido, Victor, observava com admiração. Fizeram amor ali mesmo. Era o começo de uma manhã.

Sentia muita falta dele. Três anos desde que seu esposo partira para uma daquelas guerras estúpidas lá no Ocidente.

E, agora, enquanto o conflito piorava, mais difícil era se comunicar ou conseguir notícias. De um arbusto com folhas prateadas, colheu uma rosa que mudava de cor o tempo todo, iniciando-se num cinza triste e terminando num vermelho exuberante, apenas para recomeçar o ciclo. Iria colocá-la num vaso na sala. Era o tipo de rosa que Víctor gostava de trazer para ela, às vezes, quando voltava do trabalho.

Havia problemas no jardim. A planta carnívora desenvolvera uma segunda personalidade, a qual era vegetariana, e as duas duelavam entre si, pelo domínio da hospedeira. Dava pena de olhar o vegetal tremendo e gemendo enquanto prosseguia aquela guerra de “eus”.Kaline despejou algumas gotas de uma porção calmante e a planta adormeceu. Resolveria por enquanto, mas talvez fosse preciso chamar um botânico-bruxo, o que não havia na vila e trazer um de alguma cidade-grande poderia custar mais do que o orçamento mensal permitiria…

A palmeira-duende revertera à forma humanóide e fugira na noite anterior. Kaline lamentou essa perda, afinal, aquele tipo de planta era dificílimo de se conseguir. Ao menos, a palmeira havia sido educada o bastante para deixar um bilhete de despedida, infelizmente, em linguagem de elfo. Coisa difícil de traduzir para língua humana.

Também sentia falta de ter com quem conversar. Lottar era ainda criança e três de suas melhores amigas haviam partido nestes últimos meses:

Anami fora devorada por um dragão, enquanto pescava no rio do outro lado da colina. Brígida, caçando coelhos-falantes-três-olhos, para um almoço de domingo com a família, acabou topando com o covil de um boitatá. Os parentes daquela desafortunada repartiram as cinzas entre si.

E Coralina… Bem, algumas pessoas realmente não têm sorte: ela voltava do mercado na vila, trazendo na cesta leite, pão e carne, quando passou por uma velha extremamente feia. Não resistiu e disse algo sobre a aparência daquela anciã. Acontece que a idosa era na verdade uma cuca (uma daquelas feiticeiras reptilianas que têm preferência por andar disfarçada entre as pessoas). Com um olhar ultrajado e um grunhido, a bruxa transformou Coralina em pedra. Azar terrível! Há tão poucas cucas atualmente e a possibilidade de se encontrar uma é mínima. Ninguém quis acolhê-la naquele estado e Kaline guardou para si a estátua que um dia fora sua amiga (e que serviu como um ótimo enfeite para o jardim).

Escutou um ruído atrás dela e virou-se: era Lottar. Kaline tinha muito orgulho de seu filho, uma criança de nove anos,esperta, adorável, bem comportado, porém, um pouco triste e com a mania de ensimesmar-se. Algo que herdara de Victor.

Por que voltou tão cedo da escola, Lottar? – ela indagou.

Ele parecia preocupado. Tirou da bolsa (que a própria Kaline confeccionara a partir de couro de unicórnio, no verão anterior) um pergaminho azulado.

- A professora mandou isso pra a senhora.

Ela abriu e leu o texto. Depois, voltou os olhos para o menino.

- Brigando na escola de novo, Lottar?!! Me conta!
Ele se retraiu e depois respondeu com muito ódio na voz:

- A culpa foi daquela peste do Heredia!!

- Quem é Heredia? – ela indagou.

- Heredia é um zumbi, um morto-vivo, (mas a professora não quer que a gente chame assim. Diz que é “pré-conceito”. Ela fala que tem de chamar eles de “re-vividos”). Ele ficava mexendo comigo o tempo todo!

- Ficava? E o que aconteceu? Não apanhou na escola, não foi? – Kaline questionou preocupada – Seu pai não ia querer saber que nosso filho voltou para casa apanhado!

Lottar sorriu, aquele risinho muito inocente que ele deu quando jogou uma fadinha na fogueira, no último inverno.

- Ah, não, mãe! Eu fiz aquele truque que a senhora me ensinou!

- E funcionou? – quis saber ela, a intuição de mãe já a fazendo sentir-se orgulhosa dele.

- Funcionou! Ele nunca mais vai me provocar. Mas, mãe: zumbis têm um gosto tão horrível!!!

Após dizer isso, ele cuspiu três vezes no chão do jardim.

- Muito bem, – Kaline elogiou – olha, quer comer mais alguma coisa?

- Quero não, mãe, vou pro quarto. Tô enjoado!

- Tá certo. Não se preocupe: é só efeito do “Heredia”. Deve passar logo. Daqui a pouquinho vou dar uma olhadinha em você. Tô orgulhosa, viu? Amanhã vou falar com sua professora e vai ficar tudo bem.

Lottar abraçou a mãe. Trocaram beijinhos e ele entrou.

Ela permaneceu no jardim por um pouco mais de tempo. Esse instante com Lottar trouxe-lhe Victor de volta à memória:

Apesar de amá-lo, sempre criticou nele essa obsessão com o “velho mundo”. Se algum dia, este planeta já foi, como contam os anciões, um lugar “normal”, sem magia e completamente diferente de agora; se é verdade que algo provocou “A Grande Mudança”e fez da realidade o que é hoje; tudo isso foi há muito tempo e não importa mais.

Victor, porém, ficava atormentado com essas coisas e lamentava o quanto a humanidade já havia mudado para sobreviver. Apesar disso, ele nunca conseguiu resistir a fome e continuava devorando almas. Ela ria do marido: sobrevivência é necessidade. Para que ficar meditando sobre o assunto?

Acima, o sol continuava a pino. Kaline agradeceu pela porção que usava há dez anos, a qual lhe permitia ignorar as radiações solares (lembrava de sua irmã mais velha, que queimou até a morte nas primeiras luzes de uma manhã).

Passou a língua pelos dentes caninos. Começavam a coçar e aumentar de tamanho. A fome se aproximando. Antes de ver como estava Lottar, decidiu ir ao porão, onde guardara, devidamente sedado por encantamento, um centauro, que ela captura domingo passado. Dizem que o sangue deles é delicioso.

Seria uma ótima refeição.

FIM

(Dedicado ao escritor Alexandre Heredia)

dezembro 2, 2013 at 3:40 am 2 comentários

A FUGA DE GAREN ORDONAX


Oi, pessoal,

Como já tive a oportunidade de declarar em outras ocasiões, tenho alguns textos mais antigos e, por este motivo, eles não estão no blog. Pretendo ir mudando essa situação gradualmente e postá-los aqui.

De meus textos mais antigos, este é um dos meus favoritos. Novamente tive a chance de usar Garen Ordonax e Lottar Gan Amon, dois multi-personagens meus. Se você é um/a leitor/a mais antigo meu, já sabe do que estou falando, se não for, não se preocupe: essa informação não modifica sua compreensão do texto.

Boa leitura!


A FUGA DE GAREN ORDONAX

Por Rita Maria Felix da Silva

Fugir da irrealidade, esta mentira, uma prisão de episódios ilusórios na qual me encontro. É o que jurei fazer.

Vagando pelos subterrâneos de Daral-Ank’Fazur, na escuridão, pelo esgoto, água fétida e escura até meus joelhos, pisoteando ossos e restos submersos de uma civilização morta.

Acompanhado apenas por minha lanterna, meu armamento, este traje protetor e muita ousadia, prossigo em busca da saída deste mundo.

Eu sou Garen Ordonax, nascido mago e guerreiro; por escolha e inclinação, cientista e aventureiro; e, por meus esforços, conquistador da humanidade, soberano da espécie humana na Terra, Marte e nas colônias de Júpiter e Saturno. Tudo isso, porém, renego, e almejo escapar desta falsa vida, esta ficção. Pois li o Grande Livro Sagrado do sacerdote Lottar-Gan-Amon, que fora escondido na tumba do Rei-Tirano Vhrum-Phradi, nas planícies marcianas, e agora conheço a verdade.

Após dias de jornada neste ambiente nauseante, finalmente posso ver a passagem para Khay’Yatros’Yalim, “o verdadeiro mundo, aquele que existe além das mentiras e imaginações, feito de matéria real, não dos desejos de alguma criatura presunçosa”, como dizia o livro.

Do portal encravado na parede rochosa, luz vermelha e intensa ameaça queimar-me os olhos. Protejo meu rosto com as mãos e corro para a liberdade.

Todavia, o chão estremece e o teto desaba sobre mim.

Permaneço inconsciente por um tempo indeterminado. Desperto em desespero, uso minhas armas, minhas mãos e toda minha fúria para remover as rochas que impedem minha passagem, apenas para descobrir que o portal se foi.

Eu grito de frustração e desafio:

“Não vai me derrotar, Criadora! O livro falava de outras passagens, de mais possibilidades de fuga. Eu as encontrarei e irei até seu mundo, o mesmo que conquistarei após ter matado você. Eu te amaldiçôo por ter me concebido, apenas para permitir que eu descobrisse a verdade do que realmente sou”.

Então, o mundo a meu redor começa a se desintegrar.

Rute acordou nervosa. Não queria mais dormir. Tomou banho, foi à biblioteca, lembrou a si mesma que tinha parado de fumar, encheu uma xícara de café, colocou In Dreams para tocar no cdplayer e ficou sentada esperando o começo da manhã.

— Um sonho estranho e somente isso. — disse, tentando se convencer. Não mais que outra ficção de sua mente. Sorriu. Olhou para a capa de “As Novas Aventuras de Garen Ordonax”, seu novo livro. As coisas iam bem. A crítica estava elogiando, o público aplaudia.

Ligou o computador. Pensou em começar uma nova obra… Sim, talvez uma história em que Ordonax descobrir-se ser apenas um personagem de ficção e ansiasse vir ao mundo real.
Sua intuição opinou que seria um bom livro.

FIM

novembro 25, 2013 at 3:16 am 1 comentário

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