EPÍLOGO NA MONTANHA TIANKONG

Sobre este texto:

Pessoal,
Este texto tem a ver com uma idéia antiga minha. Faz alguns anos que idealizei o básico do enredo que se tornaria esta história. Porém, não fui adiante por uma razão simples:
Eu queria que fosse uma história em quadrinhos, mas, infelizmente, não sei desenhar. Assim, guardei a idéia em minha mente esperando uma oportunidade de escrevê-la.
Meus leitores mais antigos vão lembrar de Iwan Khan, que (junto com Garen Ordonax, Lothar Gan Amon, Asfridi e Safridi, e os Malkins) é um multi-personagem meu, ou seja, aparece em universos diferentes como versões distintas dele mesmo. Mas essa informação não é relevante para o entendimento deste texto.
Boa leitura.
Beijos
Rita

EPÍLOGO NA MONTANHA TIANKONG

Por Rita Maria Felix da Silva

 Parte I – Declínio

 

Numa manhã de inverno, após uma penosa jornada, Ywan Khan chegou ao topo da montanha Tiankong. Ao avistá-lo, os sacerdotes Tianren foram esconder-se, pois a imagem do guerreiro (espada partida, coberto de ferimentos, armadura em pedaços, uma flecha ainda cravada no abdômen) provocava medo naqueles homens santos, os quais foram ensinados a abominar a guerra e tudo que a ela se referisse.

Ywan Khan não se importava. Sentia que estava morrendo e uma última coisa precisava ser feita. Enfraquecido pela dor, fome e cansaço. Suas pernas ameaçavam derrubá-lo na neve. Teimosamente resistia à febre, ao frio e à tontura, esses inimigos tão traiçoeiros. Nessas condições o guerreiro caminhou até a entrada do templo e parou diante da grande cabeça esculpida em pedra antiga, escura e esverdeada do deus Chonggao Dezhu.

A estátua — a imagem de um ancião calvo de olhos fechados e feições suaves, porém inspirando autoridade — repousava no solo de vegetação rasteira coberta de neve. Seriam necessários quatro homens, de braços estendidos para contorná-la e, igualmente, da base do pescoço ao topo daquela cabeça a distância era quatro vezes a altura de um homem.

Ywan Khan, veterano de uma centena de batalhas, suspirou para reunir a coragem de que precisaria. Ajoelhou-se, deixou que sua espada partida caísse ao solo, curvou a cabeça e assim falou:

“Grandioso Chonggao Dezhu, eu, Ywan Khan, que uma vez fui o monarca absoluto de todo meu povo, os Zhìzhě, venho diante de ti me humilhar em penitência por meu pecado.

Há cinqüenta gerações, tu desceste dos céus e procuraste meu povo. Ensinaste a eles os caminhos da paz e da sabedoria e fizeste deles grandes eruditos que devotavam suas vidas a serenidade, ao estudo e a meditação. Assim, foi por muito tempo.

Até que eu nascesse. Desde criança o modo da tranqüilidade era para mim tedioso. Eu abominava os hábitos pacíficos de minha gente e jurava que estavam desperdiçando o tempo que possuíam nesse mundo seguindo a filosofia tola a que tu os conduzira. Assim eu pensava.

Então, ansiei te substituir na alma daquela gente, liderá-los e ser adorado para que se atirassem nos modos da guerra, da selvageria e da conquista, que os transformariam num exército invencível, incendiariam todos os reinos daqui até o ocidente e, por fim, fariam dos Zhìzhě os novos mestres do mundo.

No início, muitos se opuseram às minhas idéias e fui hostilizado e exilado da companhia de todos, mas usei esse tempo para viajar por vários reinos e aprendi diligentemente sobre as artes da guerra, pois eu jurara retornar ao meu povo.

Quando isso aconteceu, percebi, para minha surpresa, que uns poucos já compartilhavam de meus ideais. Juntei-me a estes e semeie com eles o discurso da guerra nos ouvidos daqueles que eram mais sensíveis ao meu sonho. A todos estes ensinei sobre a arte da batalha e a matarem em nome de meu plano.

Breve provoquei uma grave cisão entre meu povo e liderei uma guerra civil. Por fim, minha facção venceu e, entre nossos inimigos, aqueles que não se juntaram a nós, tratei de decapitar com crueldade e rapidez.

Uma geração se seguiu, com guerras, conquistas e matanças, e, eu, cego por meu orgulho e ambição e iludido pelas vitórias que obtive, não pude perceber o que aconteceria. Em algum momento, os reinos capturados começaram a reagir, as terras ainda livres se organizaram contra nós e o nascente e jovem império pelo qual tanto ansiei caiu e afogou-se em sangue.

Um dia me vi sozinho entre os mortos no campo de batalha. De todo meu povo, apenas eu restara. Minha infinita tolice custara a vida de todos eles.

Agora compreendo a loucura da guerra, a insensatez de uma vida baseada na conquista e o abismo a que meu orgulho e ambição levaram todo meu povo.

Finalmente enxergo teus motivos, teus elevados propósitos, grandioso Chonggao Dezhu, e entendo porque era teu desejo manter os desafortunados Zhìzhě afastados do modo da guerra.

Assim, venho aqui, desolado e em humilhação, pois sei que meu erro é grande demais e não pode haver redenção para alguém como eu, mas, imploro, diga a meu povo que me arrependo do que fiz a eles. Que eu padeça no Diyu* e minha alma seja torturada em cada um dos dezoito níveis daquele reino tenebroso.

Por minha própria culpa, eu perdi tudo, então para ti entrego a única coisa que ainda me resta. Minha vida”.

E após dizer palavras tão sombrias, o outrora grande guerreiro Iwan Khan retirou a adaga que trazia presa à cintura e enterrou-a no peito. Logo, seu infeliz cadáver repousava na neve diante da estátua de Chonggao Dezhu.

 

 Parte II – Epifania

Embora a maioria dos seres humanos não saiba, os deuses vivem em uma interminável guerra fratricida, com apenas breves pausas em que decidem interferir no mundo dos mortais.

Foi assim naquele dia. Chonggao Dezhu havia acabado de atravessar uma lança no coração de um Yeren**, que servia ao deus da guerra Yehehua Delie Zhanshi, quando parou para descansar e sentiu-se incomodado por uma súplica vinda do reino dos humanos. Normalmente, orações chegavam aos ouvidos divinos na forma de zumbido, irritante e incompreensível, mas a curiosidade dos deuses acabava por obrigá-las a querer descobrir do que se tratava.

Rapidamente localizou o ponto de onde a prece emanava e escolheu uma forma em que ele poderia se manifestar. Deste modo, a grande cabeça de pedra em frente ao templo na Montanha Tiakong estremeceu e seus olhos se abriram.

Chonggao Dezhu olhou para o mundo além da montanha, procurando pelos Zhìzhě, pois sentia que a oração viera de um deles, mas frustrado descobriu que todos estavam mortos. Então notou o cadáver do infeliz Iwan Khan e, nos ferimentos e expressão de dor no rosto do guerreiro, pôde ler toda a história daquela alma desafortunada.

O deus estava furioso. Criara os Zhìzhě, esperara muito deles e agora aquela coisa tola e insignificante chamada Iwan Khan havia destruído um plano longamente elaborado. Meditou por um instante. Nem tudo estava perdido e havia um modo de castigar aquele patético orgulhoso. Era algo que o Rei Yama, soberano do Diyu, certamente não gostaria, mas ele cuidaria de Yama depois.

Dos olhos na cabeça de pedra partiram dois raios verde-azulados que atingiram o cadáver de Ywan Khan e a área ao redor dele. E, assim, em torno daquele corpo — num círculo que caberia dez homens de pé — a neve e o frio desapareceram, a vegetação rasteira ressurgiu e o ar tornou-se suave como a primavera. Em seguida o corpo do guerreiro caído passou a brilhar na mesma cor dos raios e depois a dissolver-se numa nuvem de energia.

Chonggao Dezhu sorriu satisfeito e pensou em ficar para ver o final do que havia provocado, mas, no reino dos deuses, a trovejante deusa Gongjian Qingfu e o amante dela, o sombrio Heian Fashī, armados com espadas gêmeas, avançaram sobre ele.

Retornando ao eterno combate dos deuses, a essência de Chonggao Dezhu abandonou a enorme cabeça de pedra, mas não antes de procurar um mortal de mente suscetível — o mais próximo era um sacerdote Tianren chamado Liu An — e para este enviou um sonho flamejante.

 

Parte III – Natividade

 

Liu An estava meditando quando uma terrível visão, um sonho flamejante, veio atacar-lhe o espírito.

O monge levantou-se em desespero e apenas os anos de condicionamento permitiram-lhe conter um grito na garganta. Pôs a mão direita sobre o olho esquerdo, que havia sido queimado pelo sonho, no qual o grande deus Chonggao Dezhu, responsável pela fundação do mosteiro na Montanha Tiankong há 100 gerações, apareceu-lhe com palavras imperiosas e apontou-lhe uma missão.

Antes, porém, que ele pudesse cuidar daquele ferimento, escutou um som que julgara impossível naquele lugar. O choro de bebês.

Liu An caminhou para fora do templo, passou pelos seus irmãos monges, que se refugiavam de Iwan Khan, e logo estava diante da cabeça de pedra de Chonggao Dezhu. Admirou-se ao contemplar um círculo na vegetação rasteira onde, apesar da neve em todo o redor, imperava a primavera. Um milagre, certamente. Coisa dos deuses. Melhor não questionar.

No centro do círculo, o que parecia uma nuvem de energia, desapareceu a frente de seus olhos e, no lugar, havia agora sete bebês, quatro fêmeas e dois machos, que choravam o choro dos recém-nascidos.

Um a um, Liu An recolheu-os para acomodação mais adequada dentro do templo e foi pedir ajuda a seus irmãos para cuidar daquelas crianças. A todo o momento, as palavras de Chonggao Dezhu queimavam em sua lembrança:

“Abriga-os e eduque-os. Conduza-os pelos caminhos da sabedoria, nunca pelos da guerra. Faça deles nobres e sábios para que, assim, um novo povo Zhìzhě possa existir. Este é meu desejo. Cumpra-o”.

Lá fora o círculo que simulava uma primavera se desfez e a neve retomou seu espaço. Ali, no local onde Liu An encontrou os bebês, repousava uma espada partida: uma das poucas lembranças de que o infeliz guerreiro Iwan Khan havia, alguma vez, existido.

FIM

Dedicado a Dan Folador e Heitor Vasconcelos

Notas:

* Diyu – o Inferno na mitologia chinesa.

** Yeren – criatura da mitologia chinesa, semelhante ao pé-grande, sasquatch ou abominável homem das neves

fevereiro 26, 2012 at 6:18 am 2 comentários

A Ùltima Caminhada de Garen Ordonax

Pessoal, o texto desta semana também é uma versão ampliada de uma rap (“rapidinha”, texto curto de até 120 palavras) que fiz na OE (Oficina de Escritores).

Leitores mais antigos meus, poderão reconhecer Garen Ordonax, Lothar Gan Amon e Iwan Khan, que são multi-personagens meus. Embora a ausência dessa informação não altera o entendimento do texto. Beijos. Rita

A Última Caminhada de Garen Ordonax

Por Rita Maria Felix da Silva

Manhã de 05 de setembro de 2512…

De pés descalços e sob escolta de dois guardas pesadamente armados, o rebelde Garen Ordonax caminhou pela areia do pátio da prisão até a câmara de incineração, ao lado da qual se podia ver Lothar Gan Amon, um funcionário da Tecnocracia.

A Tecnocracia, uma fusão de corporações, partidos e governos, vencera e impusera-se como a nova e única liderança mundial. Eles esmagaram toda e qualquer resistência que ainda persistisse. Os ideais de liberdade e igualdade entre os homens, o sonho da Democracia, foram cruelmente sepultados, numa cova anônima e coletiva, e substituídos por um novo dogma: “Felicidade pela Eficiência… Felicidade pelo Lucro… Para Sempre!”

Garen não mais se importava. Fugira durante meses, acreditando ser capaz de enganar seus perseguidores, mas, inadvertidamente, deixara algum rastro e eles o capturaram e torturaram. Agora, sentia-se esgotado de lutar, de sofrer. Era o único dissidente político ainda vivo, o último defensor de uma causa extinta. Que a morte viesse. Seria, por fim, um alívio.

Fecharam a porta da câmara. As luzes se acenderam. Pensou em Elise. Ainda a amava tanto. Onde ela estaria agora? Conheceram-se naquele museu clandestino, o último a ser fechado pela Tecnocracia. Conversaram diante do quadro “As Pegadas”, de Iwan Khan. Breve, porém, um flash de calor inimaginável consumiu-lhe essa memória e ele mesmo.

Fora da câmara de incineração, Lothar Gan Amon, um telepata, Interrogador Oficial e Supervisor de Execuções, suspirou. Por alguma razão, apreciava observar os últimos pensamentos daqueles que eram incinerados. Quando estava sozinho, sentia prazer em rever aquelas memórias. Nostalgia, talvez. Algo de poético, que seus superiores não aprovariam, se descobrissem é claro.

Virou-se para voltar a seu escritório. Fez uma anotação mental sobre a imagem que captou enquanto Garen era desintegrado:

“O criminoso Garen Ordonax, ao lado de uma bela mulher. Ambos olhando um quadro de duas pegadas na areia de uma praia. O rebelde parece incrivelmente feliz”.

FIM

Dedicado a José Joaquín Ramos

fevereiro 11, 2012 at 2:14 am 13 comentários

Voltando a Postar: Dois Textos

Oi, pessoal,

Voltando a postar no blog, trago estes dois textos. O primeiro é minha versão um pouquinho ampliada de um exercício na OE, Oficina de Escritores. O tema era “mensagem”. Vai dedicado ao desenhista Joe Bennet, ilustrador (dos melhores) brasileiro que faz ótimos quadrinhos para as editoras americanas (vocês precisam conhecer o trabalho do cara).

Neste primeiro texto, uso um antigo personagem meu chamdo Atros Dysatrak. Meus leitores poderão perguntar: “quem?” :) Realmente, vocês nunca o viram num texto meu, pois Atros faz parte de antiqüissimashistórias em quadrinhos que eu tentava desenhar. O resultado não foi algo que eu teria coragem de mostrar a vocês (não sou desenhista), mas eu gostava muito do personagem, tanto que resolvi trazê-lo de volta numa versão muito modificada, mas que, acredito, faz jus a ele. 

O segundo texto é um poemeto, na verdade, venho recitando esse há anos, mas apenas agora decidi colocar no papel (tela do computador). Postei-o na língua original (com pronúncia aportuguesada) e com a tradução para o Português. Aos que se interessarem, leiam em voz alta na versão original, podem gostar. Igualmente, aos que se interessarem, há uma pequena mitologia, que criei, por trás desse poema: deve ser recitado apenas uma única vez e somente para a pessoa que significar mais que qualquer outra (romanticamente falando) para você. Sim, estou violando essa idéia, mas, do contrário, vocês não poderiam lê-lo. Por razões minhas, o segundo texto, o poemeto, não vai dedicado a ninguém.

Boa leitura.  Beijos multiversais.

Rita

Texto 1 – Cronodifusão

                                                   CRONODIFUSÃO

Por Rita Maria Felix da Silva

                                                                  – I –

Com o ferimento radiativo ceifando-lhe a vida, Atros ponderou sobre o que iria fazer. A tecnologia usada era, ainda, muito experimental, mas a possibilidade de sucesso, por menor que fosse, mostrava-se tentadora demais… Reavaliou os cálculos e revisou a mensagem antes de gravá-la. Tão logo alguém tocasse a esfera, escutaria o alerta repetido, numa seqüência, em todas as línguas majoritárias da Terra no ano-alvo:

“Eu sou Atros Dysatrak, da resistência pluniana conta o Império Malkin. Seja você quem for, envio este alerta a partir de 150 anos no futuro. Não confie no embaixador Malkin. A chegada dele inicia os eventos que irão conduzir a conquista e extinção da humanidade. Avise a todos.”

 - II –

Onofre soltou a Bíblia e, armando-se de uma marreta, despedaçou o objeto que aparecera do nada — uma esfera flutuante, em cuja superfície luzes piscavam oscilando entre o azul e o vermelho. Ele bateu naquilo até que o objeto caísse ao chão e fosse reduzido a pequenos pedaços.

Temente a Deus e orgulho da sua igreja, não se atreveu a tocar naquela esfera, que, certamente, era coisa do Diabo.

Olhou para o relógio. Hora de fechar a oficina e ir ao culto. Mais tarde, com pá e vassoura, limparia aquela sujeira.

Cinco meses depois, o embaixador Malkin chegaria à Terra.

 FIM

Dedicado a Joe Bennett

Texto 2 - Ahmen-ati di

Ahmen-ati di

Ahmen-ati di
Mak m’arin mak m’anah
Quod’ amon nami ani nih-imar
Onah-ini alu rha ni m’ariti
Ahmen-ati di

Luz da Minha Vida

Luz da minha vida
Nunca te apagues, nem te extinguas
Nem vá para os lugares escuros
Onde não poderei te encontrar
Luz da minha vida

Poesia: Rita Maria Felix da Silva

fevereiro 4, 2012 at 5:51 pm 4 comentários

Dois textos para o Natal

Pessoal,

Novembro e dezembro têm sido meses bem difíceis para mim em todos os campos e isso, naturalmente, interfere em meu trabalho literário. Assim, peço desculpas aos leitores pelo atraso nas atualizações.
Tentando superar essa fase complicada, volto a atualizar o site. Também voltei a traduzir quadrinhos, algo que também adoro, mas ainda devo alguns textos, um deles a um amigo aqui na Internet. Mas pretendo resolver essa pendência até amanhã.
Como um presente de Natal, atrasado, para meus leitores, esta atualização vai com dois textos.
O primeiro, “Anqueu e Ketelyn”, conclui a “Duologia do Orgasmo”, iniciada no post anterior com “Tabu Divino”. Já tive a oportunidade de explicar que, ambos os textos, e aquele de que falarei no parágrafo abaixo, são resultado de exercícios literário na Oficina de Escritores, um grupo de autores na Internet ao qual tenho a honra de pertencer. ” Anqueu e Ketelyn”, é uma idéia que o tempo não me deixou aproveitar nesse exercício.
“Pequenas Bombas Biológicas” é meu texto de Natal. Deveria ter sido para um exercício na Oficina de Escritores com o tema “Estranho Noel”!, porém, não consegui participar.
Feliz Nata e o melhor ano novo para todos. Muito obrigada pelo carinho de vocês em 2011.
Beijos
Rita

ANQUEU E KETELYN

Por Rita Maria Felix da Silva

Em algum ponto remoto de sua história, o povo do Planeta Gumuntaga foi escolhido pelos Deuses para se tornarem imortais e eternamente jovens; livres das doenças, da fome, do sono e de qualquer mal ou fraqueza que ainda afligem outros seres menos afortunados.

Todavia, as divindades eram, por sua própria natureza, obscuras, e, pelo que haviam oferecido, apenas uma regra impuseram, como mandamento sagrado:

Entre aquele povo, ninguém poderia copular. E, sendo os deuses também caprichosos, jamais tentaram explicar qualquer motivo para essa proibição.

Grato e temeroso, o povo obedecia e aproveitava a condição paradisíaca que lhes fora concedida. Assim foi por muito tempo.

Porém, certa vez, Anqueu e Ketelyn reviraram livros antigos e proibidos e souberam de coisas abandonadas há muitos ciclos solares.

Ele e ela, ignorando a tradição e a prudência, abraçaram para si um sentimento já esquecido pelo seu povo e se apaixonaram.

Então, afastaram-se de todos, encontraram-se em segredo e deitaram-se e copularam, até chegarem naquela palavra perdida chamada “orgasmo”. Quando terminaram, ambos tinham um sorriso no rosto e a maior felicidade que já puderam sentir.

Porém, logo começaram a sentirem-se estranhos, gritaram de dor pela primeira em uma eternidade e rapidamente envelheceram e definharam, até que, daqueles amantes tudo o que restava eram dois cadáveres ressequidos.

Breve, ou melhor, no espaço de tempo que um humano chamaria de “poucas horas”, um destino exatamente igual atingiu todo o povo de Gumuntaga.

FIM

Dedicado a Eric Novello

PEQUENAS BOMBAS BIOLÓGICAS

- Um Inesperado Conto Natalino –

Por Rita Maria Felix da Silva

Bem no centro do universo, num lugar sem nome, ficava um disco prateado cujo raio não era menor que o da Via Láctea. No meio exato de tal lugar, podia-se ver o trono de Zeus, Rei dos Deuses.

Quase na borda desse disco prateado, estava o escritório do ogro Svdar, que trabalhava para Zeus. Ele não saberia dizer quando começara nesse emprego, afinal, o pagamento (“juventude e vida eternas, enquanto seu desempenho for satisfatório”) ajudava a atrapalhar sua memória.

Naquela ocasião, o ogro checou os relatórios mais uma vez. Queria ter certeza das conclusões, afinal o Chefe não gostaria de enganos num assunto grave como esse. Estava tudo certo. Suspirou preocupado.

Juntou as três páginas do documento, enrolou e guardou-as num tipo de cilindro feito com a pele cinzenta de algum animal. A extremidade de cima ele fechou com uma tampa de madeira. Emitiu um assovio composto de quatro notas musicais e, quase imediatamente, um duende-mensageiro apareceu.

— Leve isso para o Chefe. — disse Svdar, enquanto entregava o cilindro ao mensageiro.

A pequena criatura partiu ligeira. Mesmo a mais rápida das máquinas já criadas pelos humanos demoraria talvez uma eternidade para cobrir a distância entre o escritório de Svdar e o trono do Rei dos Deuses, mas aqueles duendes-mensageiros eram as coisas mais velozes que se possa imaginar, e a mensagem chegaria a seu destino em pouquíssimo tempo.

O ogro sentou-se de volta à escrivaninha e começou a rascunhar cálculos. Era uma situação bastante séria e seu Chefe iria querer propostas de medidas bem elaboradas para lidar com o assunto. Enquanto escrevia, lembrava de trechos do documento que enviara a seu mestre:

“(…) a recente vitória das Divindades, sobre vosso comando, na guerra contra os demônios, o que, finalmente, trouxe a extinção à desprezível espécie demoníaca. Obviamente uma minoria de Deuses, mais liberais, pode queixar-se alegando ‘genocídio’, porém, é uma minoria inexpressiva, indigna da atenção de Vossa Majestade.

O problema, contudo, é que o conflito liberou uma gama imensurável de energias desagradáveis e algumas entidades menores acabaram sendo afetadas, especialmente aquelas que são mais queridas pelos mortais. Temo o quanto isso poderá acarretar de baixas entres os humanos (solicito que analise minhas estimativas sobre o assunto). Entre os seres afetados, chamo grave atenção a Yur-Yulek-Wantabi, mais conhecido pelos habitantes da Terra como Papai Noel…”

*******************************************

Noite da véspera de Natal…

Um gargalhante e enlouquecido Papai Noel cruzava os céus em seu tradicional trenó puxado por renas.

Dessa vez, porém, ele atirava pequenas bombas biológicas, contendo uma versão magicamente alterada da Peste Bubônica, para que esta pudesse se espalhar meramente pelo ar, o que provocaria a maior epidemia que este mundo já vira.

FIM

Dedicado a Al Reiffer

dezembro 26, 2011 at 6:03 am 5 comentários

Tabu Divino

Sobre este texto

TABU DIVINO
Por Rita Maria Felix da Silva

 

Arin-Kipak, Deusa dos Céus Tempestuosos, e Yon-Anru, Deus dos Mares Revoltos, atingiram o orgasmos juntos. Ele a beijou, rolou para o lado, e então disse:

— Em toda a eternidade, quantas vezes eu e você já copulamos?

— Pouquíssimas.

— Não entendo: enquanto os mortais têm relações o tempo todo, nós, divindades, sofremos com essa lei insana nos limitando. Alguém, pelo menos, sabe o porquê?

— Ninguém. Esquece isso.

Ela o beijou de volta e ambos se abraçaram e adormeceram.

E, em algum lugar do multiverso, poucos instantes atrás, um mundo, habitado por uma cultura antiqüíssima, havia explodido.

FIM
Dedicado a Henrique Kipper

dezembro 5, 2011 at 5:06 am 9 comentários

Tirinhas da Revista Alfa Eridani

Pessoal,

Há algum tempo, a revista virtual argentina Alfa Eridani publicou estas tirinhas, escritas por mim e desenhadas por Jose Beltramo. Como são praticamente desconhecidas dos leitores daqui do Brasil, posto-as para vocês. Boa leitura.

Beijos

Rita

 

 

novembro 27, 2011 at 9:03 pm 3 comentários

Tirinhas “Olhos no Escuro”

Oi, pessoal.
A atualização de hoje vai ser um pouquinho diferente:
ao invés de um conto meu, postarei os quadrinhos que eu e a escritora e ilustradora Adriana Rodrigues (Strix Van Allen) fizemos algum tempo atrás. É um trabalho que me agradou muito fazer, parte porque Strix é uma ótima amiga, parte porque o resultado me agradou. Eu e Strix pretendemos retomar essas tirinhas, estamos aguardando só a oportunidade para tal.
É só clicar nas minituras para abrir a imagem.
Os leitores mais atentos irão perceber que a idéia é satirizar o universo da Fantasia. Boa leitura!

novembro 20, 2011 at 7:24 pm 2 comentários

Dia dos Mortos

DIA DOS MORTOS
Por Rita Maria Felix da Silva

A estranha anomalia nos céus de todo o mundo.

Ruy Castilho olhou para ela e depois para suas próprias mãos. Lembrava do acidente de trem em Málaga. Depois tudo ficara escuro. Tinha certeza que havia morrido. Não compreendia como estava ali.

Procurou por amigos, conhecidos e parentes, que deviam ainda estar vivos, mas nada achou.

Conversou com muitas outras pessoas como ele, que também sabiam estarem mortas, e elas igualmente não encontraram ninguém vivo.

Muitos mortos celebravam terem o mundo inteiro só para si. Outros se desesperaram por não saberem o que fazer. Ele foi uma daqueles que caminhou sem rumo ou motivo, pois aquela situação insólita roubava-lhe o entendimento e as palavras.

Foi assim durante 24 horas, até que a anomalia desapareceu e Castilho e todos os outros se dissiparam de volta ao esquecimento.

Então, por toda a parte, sete bilhões de vivos reapareceram sem saber onde estiveram por todas aquelas horas. O “Dia dos Mortos” havia acabado.

FIM

Dedicado a Clinton Davisson

novembro 5, 2011 at 3:37 am 8 comentários

QUESTÃO TRABALHISTA

Sobre esse texto

QUESTÃO TRABALHISTA

Por Rita Maria Felix da Silva

ATO ÚNICO

[Escritório de Panzhur]

CENA I

(Panzhur e Vastir)

(Vastir entra no escritório. Panzhur está sentando à mesa lendo documentos).

(Vastir) — Chefe…

(Panzhur) — “Chefe”?

(Vastir) — Desculpa. Benevolente Mestre Panzhur….

(Panzhur, sorrindo) — Melhorou. Fala!

(Vastir) — É o Benemudes…

(Panzhur) — Que é que tem aquele animal fedorento?

(Vastir) — Reclama o tempo todo que está há dez translações na mesma função. Diz que é preconceito!

(Panzhur, indignado) — O que?! Some daqui, vai trabalhar. Depois resolvo isso.

(Vastir sai)

*

CENA II

(Panzhur)

(Panzhur, monologando revoltado) — Benemudes…. O mundo daquele verme reclamão nem existe mais. Devia mandar matá-lo, pois não há lei para proteger aquela monstruosidade. Preconceito? Era para ele me agradecer por deixá-lo juntar excrementos. Afinal, que outra empresa daria emprego a um humano?!

FIM

Dedicado a Jean Gabriel Álamo

outubro 29, 2011 at 3:02 am 4 comentários

A GALERIA

Pessoal, ainda devendo a vocês a conclusão de “Trinca de Ases”. Perdoem-me. Probleminhas técnicos, mas virá na próxima semana. Hoje deixo vocês com “A Galeria”.  Beijos.  Rita

A GALERIA

Por Rita Maria Felix da Silva

A voz do advogado era monótona, áspera e deixava escapar um tom de falsidade. Ayla sentia-se incomodada enquanto aquele homem falava:

        — Os termos são claros, Sra. Mitzis. No testamento, seu pai, o Barão de Lankera, deixa-lhe todo o patrimônio. A única condição é que mantenha esta galeria. Isso concluí meu trabalho. Passar bem.

        Inquieta, Ayla Mitzis tentou dormir aquela noite na mansão. Há dez anos, quando as diferenças entre ela e o pai tornarem-se, numa hipótese otimista, além de qualquer conciliação, o Barão expulsou-a dali, deserdou-a e jurou querer vê-la morta. Não havia ninguém no mundo que a odiasse mais. Então, por que mudar o testamento e beneficiá-la agora? À noite, que parecia estranhamente silenciosa, não deu resposta alguma.

        Pensou na galeria no porão. 64 quadros. Gravuras pintadas pelo próprio Barão, emolduradas e cobertas com um estranho vidro azul. Contava-se muita coisa sobre aquele nobre, diziam que era um mago e ajudava pessoas aprisionando o medo delas. Bobagem supersticiosa! Ayla nunca deu importância a essas histórias.

        Fechou os olhos pedindo que o sono viesse logo, mas, então lembrou do quadro número 31… “Sra. Nadiya Nikolayevna Korovin”… A imagem de um monstro indizível… O vidro trincado. Escutou algo se despedaçar, como uma enorme vidraça atacada com fúria.

    Para a polícia, os empregados da mansão contaram sobre barulhos animalescos e gritos horríveis, mas a porta do quarto de Ayla estava trancada e nada que eles fizeram conseguiu abri-la.

        Após alguns minutos, a porta destravou-se, como por mágica, e o corpo de Ayla Mitzis, viúva de Karl Mitzis (famoso comerciante e o maior inimigo do Barão de Lankera), foi encontrado em exatos 128 pedaços.

        Na galeria do porão, um quadro despencara da parede e sua moldura jazia no piso de mármore. Vidro azul espalhado por toda a parte.

FIM

Dedicado a Alex Bastos

outubro 14, 2011 at 4:31 am 8 comentários

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